quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A decisão de decidir

Foto de James Bogue


“Tomar decisões era, para mim, a parte dolorosa, a parte que me afligia, mas, assim que a decisão estava tomada, eu simplesmente a levava até ao fim – normalmente, sentindo alívio pelo facto da escolha ter sido feita”


Estava eu a deliciar-me na leitura do livro “Crepúsculo” da Stephenie Meyer, ali, num jardinzito mesmo ao lado do meu local de trabalho
(que tem destas coisas boas – um jardim ao pé, um café onde me guardam o almoço e uma hora inteira para poder ler por um bocado)
quando me deparei com a frase com que iniciei esta crónica. Se bem que o livro é sobre vampiros, e, ao que parece, o Edmund até lê pensamentos, não me parece que tenham lido o meu. Mas, o que é certo, é que é exactamente assim que eu penso (e, já agora, ajo).
Quando decido alguma coisa, seja lá sobre o que for, vou até ao fim. Antes, peso os prós e os contras, e não dou nenhum passo em qualquer sentido sem que a decisão esteja tomada.
Assim que decido e que assumo o que decidi para comigo, sinto-me, de facto, aliviada. E tento, na medida do possível, levá-la até ao fim. Claro que não estou a falar de coisas corriqueiras, como “que fazer para o jantar” ou “que livro vou ler a seguir”
(se bem que já sei que o livro que vou ler a seguir irá ser a continuação deste. Já do jantar logo vejo o que me apetece… ou até pode ser que esteja feito quando chegar a casa)
estou sim a falar de decisões importantes, que me possam afectar, positiva ou negativamente, e cujas consequências possam perdurar no espaço e no tempo. São essas que me levam a passar por um período doloroso, seguido do alívio pela escolha feita. Mesmo que essa escolha, por qualquer razão, seja contrária ao que eu pensava que seria a melhor escolha noutra altura qualquer. Até porque crescer e evoluir é também mudar de opinião e assumir essa mudança.
Duma forma franca e honesta, prefiro uma má escolha a uma indecisão. Parece que a Isabella também.


Nota – Isabella e Edmund são as personagens principais da saga “Luz & Escuridão” escrita por Stephenie Meyer. A história é contada na primeira pessoa, Isabella, a quem “pertence” a reflexão inicial.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Indigentes



Todos os dias, no caminho para o meu emprego, passo por uma das zonas de Lisboa onde vivem mais indigentes – pessoas a quem a vida não sorri e que se vêem obrigadas a viver na rua.
No Terreiro de Paço, mesmo por debaixo das arcadas, lá estão eles. Nas suas camas feitas de cartão, ou, nalguns casos, com sacos-cama ou cobertores, já roçados e gastos de tantas noites, por certo, mal dormidas.
Todas as manhãs, algumas pessoas fazem a distribuição do pequeno-almoço. Uma sandes e uma garrafa com leite ou chá. Para muitos deles está será a única refeição do dia. À hora que passo está a distribuição a meio. E se alguns se mantêm nas camas enquanto comem, outros levantam-se, tentam fazer a sua higiene pessoal com a água que recolheram em garrafas de plástico e arrumam os seus poucos pertences dentro de caixas, antes de se sentarem, com a dignidade que lhes resta, para comer.
Tentam, quase todos eles, apesar das condições adversas em que vivem, fazer uma vida dita (quase) normal. Há quem vá buscar os jornais gratuitos para poder ler e saber o que se passa no mundo, há quem jogue às cartas e até quem ouça música num qualquer leitor portátil – quem sabe se não será o único bem que tem da vida anterior.
Uma das pessoas que por lá está é uma senhora de idade que pouco anda. São então os restantes que a ajudam a chegar para a sombra quando é preciso, ou lhe vão buscar alguma coisa que necessite. A solidariedade entre o grupo é espantosa. Ou pelo menos assim parece a quem passa.
São pessoas sem outros bens que não sejam aqueles que têm consigo. Alguns, não materiais, que normalmente em outras circunstâncias se esqueceriam, tal como nós nos esquecemos que os temos. São pessoas sem rendimentos que não sejam as esmolas que lhes vão deixando. No entanto, tentam, por todos os meios, manter-se limpos e arrumados.
Quando passam, na televisão, casos de pessoas pobres que vivem em casas sem condições, muitas vezes o que me salta à vista não são as faltas de condições da casa mas sim a falta de limpeza. Falta de limpeza, como me mostram todos os dias os indigentes que vivem no Terreiro de Paço, não significa pobreza. E o inverso também é verdade.
Cada dia que passo pelo Terreiro de Paço renovo a lição que aprendi no primeiro dia que os vi – podemos perder tudo, menos a dignidade. Essa não há quem nos tire.
E é, também, com a realidade destes indigentes que ganho forças para lutar, agir e contemporizar. Onde na memória se grava que a dignidade não tem estatuto social.

domingo, 2 de agosto de 2009

Autopsicografia

Foto de Charalampos Mavrommatis

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Enquanto houver amizade

Foto de Jerry Matchett

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um do outro há de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade
A amizade nos reaproximará
Pode ser que um dia não mais existamos....
Mas, se ainda houver amizade
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente.
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos vivemos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

domingo, 26 de julho de 2009

Precisava tanto de ti hoje

Foto de Emil Schildt

Queria tanto ser espuma do mar
que te beija o olhar constantemente.
Ser a humidade que fica
entre os teus lábios quando se tocam.
Ser a semente da inquietude desse teu peito
encharcado de ternura.

Sempre desfolho a minha vida
em diário de cores intensas.
Mas sempre ancoro na palavra saudade
que suavemente me molha os pés,
deixando crescer a raiz dentro deste corpo
que te anseia.

Plano, em silêncio,
nesta distância que nos separa e que dói, tanto…
Viajo ao teu abraço, noites e noites,
na companhia das estrelas que calam o murmúrio
deste amor que não cessa.

São tantas as vezes que te beijo a alma,
em marés agitadas de madrugadas vazias de ti.
São tantos os sonhos que se empoleiram à janela
e te tocam em pontes de desejos
comandados pela voz penetrante e quente
que me deixa embriagada pela ilusão do aconchego.

Estendo o meu corpo ao luar
esperando que este me lamba e te entregue o meu sabor,
talvez te lembres do aroma do carinho em tons de branco,
pincelado de rosas vermelhas.

Mesmo na flacidez, insistente, do passar dos anos
ainda crescem, rijos, os seios que te pertencem…
ainda nasce o sol, quente, entre as minhas coxas
com a memórias dessas mãos de poeta
que anseia o poema em corpo embriagado de palavras insanas.

Vai-se fechando a noite e ficando para trás um grito mudo e ausente,
num pensamento que me acerca e que te implora:

- Precisava tanto de ti hoje, tanto…

Vanda Paz

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sentir o saber

Foto de Damian Puttick



Não consigo bem pôr em palavras o que sinto quando toco num livro. Livro de capa áspera, recheado de folhas tingidas por um tom amarelado que cheira a saber. Gosto de sentir com a ponta dos dedos os relevos das letras que anunciam o título da obra, de encostar as páginas ao nariz e absorver o aroma do papel. Ando sempre com um livro na mala, vá para onde for, e quando me esqueço de o trazer é como se me faltasse um bem essencial e indispensável à vida, como se de um membro extra se tratasse, tão necessário quanto um braço ou uma mão.
Ultimamente não tenho lido livros. Devoro livros. Como quem se apodera de um morango gigante coberto de natas frescas, impossível de resistir. São a companhia perfeita, sei que aquelas histórias fictícias que me recheiam a vida estão sempre ali para mim, não me abandonam. Nunca. Adicionam detalhes doces e aconchegantes à minha existência, levam-me para um paralelo imaginário, o qual muitas vezes prefiro à realidade.
Trato-os por tu, e no final, falo com eles, e sussurro-lhes os momentos mágicos que me ofereceram, como se fosse um segredo só nosso.
Companheiros de cabeceira, e de uma vida, dou por mim a preferir a companhia deles em vez de certas companhias humanas, que já esgotaram o que de cativante tinham, que para mim já não passam de simples folhas brancas, amarrotadas, com meros rabiscos escrevinhados, desprovidos de sentido. Desprovidos de vida.

Bee

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sonho azul

Foto de Dianne Owen


Levei-o no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-o comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

Levei-o no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-o comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

Pedro Ayres Magalhães

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fim

Foto de Arny Rardts

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário Sá Carneiro

domingo, 12 de julho de 2009

Ser criança

Foto de Marta Cernicka

Hoje soltei as amarras do pensamento e ergui bem alto a bandeira da Paz!
Não quero saber de guerras nem de lágrimas, de crianças órfãs, de membros mutilados, de mortos estendidos pelas estradas... Que se mate quem as faz, quem as provoca, quem cria armas mortais!
Não me importa se a América está em crise e leva o resto do Mundo com ela, num abismo absoluto da qual não vemos saída. Mate-se quem gere desta forma vergonhosa o nosso dinheiro, quem nos enfia nesta perigosa curva sem fim à vista e deixem-nos trabalhar, produzir e comer o nosso pão.
Deixem-nos Viver!
Hoje sou criança e quero a inocência que lhes pertence, quero desconhecer a podridão que me rodeia, quero esquecer que existem Homens cruéis, capazes de tirar uma vida, capazes de excomungar vítimas, capazes de torturas e mutilações.
Hoje sou criança e quero um Mundo onde as pombas brancas esvoacem graciosamente, onde as borboletas nos pousem no nariz e onde saibamos sorrir com vontade. Onde podemos caminhar descalços sem medo de pisar lixo ou armadilhas de qualquer espécie, onde o mar é azul e límpidos e as águas dos rios cantam músicas de embalar às flores plantadas nas margens.
Hoje soltei as amarras do pensamento e brinquei feliz num mundo muito melhor!
Vera Sousa Silva

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hoje

Foto de Antanas Strazdas

Hoje vou apagar do meu calendário dois dias:
Ontem e amanhã.
Ontem foi para aprender,
E amanhã será uma consequência do que possa fazer hoje.
Hoje enfrentarei a vida
Com a convicção de que este dia nunca retornará.
Hoje é a última oportunidade que tenho
De viver intensamente
Já que ninguém me assegura
Que amanhã veja o amanhecer.
Hoje serei corajoso
Para não deixar passar as oportunidades que se me apresentem...
Que são a minha oportunidade de triunfar.
Hoje aplicarei
A minha riqueza mais apreciada:
o meu tempo
No trabalho mais transcendente:
A minha vida;
Passarei cada minuto
Apaixonadamente para transformar este dia
Num único e diferente dia da minha vida.
Hoje vou vencer
Cada obstáculo que apareça no meu Caminho,
Acreditando que vou vencer.
Hoje vou resistir
Ao pessimismo e conquistarei
O mundo com um sorriso, com uma atitude positiva
Esperando sempre o melhor.
Hoje farei de cada humilde tarefa,
Um sublime expressão.
Hoje terei os meus pés sobre a Terra
Compreendendo a realidade
E as estrelas tilintarão
Para inventar o meu futuro
Hoje usarei o tempo para ser feliz
E deixarei as minha pegadas e a minha presença nos corações dos outros.
Hoje, convido-te a começar uma nova estação,
Onde possamos sonhar
Que tudo o que nos propomos possa ser possível
E o obteremos,
Com alegria e dignidade

Anónimo