sábado, 24 de outubro de 2009

A força das palavras

Foto de Floriana Barbu

Vens do tempo e estarás no tempo e a tua palavra estará no vento e será espalhada pela terra. A tua palavra será o fogo que transforma todas as coisas. A tua palavra estará na água e será espelho da língua. A tua palavra terá olhos e verá, terá ouvidos e ouvirá, terá tacto para mentir com a verdade e dirá verdades que parecerão mentiras. E com a tua palavra poderás regressar à quietude, ao princípio onde nada é, onde nada está, onde tudo o que foi criado regressa ao silêncio, mas a tua palavra despertá-lo-á e terás de nomear os deuses e terás de dar vozes às árvores e farás com que a natureza tenha língua e falará por ti o que é invisível e torna-se-á visível na tua palavra. E a tua língua será palavra de luz e a tua palavra, pincel de flores, palavra de cores que, com a tua voz, pintará novos códices


Laura Esquível, in A Malinche

domingo, 18 de outubro de 2009

Retrato

Foto de Aguiar Thierry

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Gaivota

Foto de Carlo Magnatti

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

domingo, 4 de outubro de 2009

A morte

Foto de Paul David Athey

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

Vinicius de Moraes

domingo, 27 de setembro de 2009

Ser feliz

Foto de Bryce Johnson

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o alguém da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

Mário Quintana

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Construir o sonho

Este é um sonho diferente...
Juntando apoios e esforços
Vontades e persistência
Tijolo a tijolo
Sustenta-se a esperança
De alicerçar o futuro
De cidadãos especiais
Com materiais de amor
Segurança e estabilidade
Num abraço colectivo
Em troca de um sorriso
O sonho que é de todos
Será uma realidade!


A autora, Fernanda Esteves, e a Temas Originais têm o prazer de oconvidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Canteiros de Esperança”, a ter lugar na Sociedade Filarmónica Humanitária, sitana Av. Doutor Godinho de Matos, em Palmela, no próximo dia 26 deSetembro, pelas 16:00.
Obra e autora serão apresentadas pela poetisa Alexandrina Pereira.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O céu tem mais uma estrela



Nestes dias cinzentos e chuvosos, torna-se mais difícil pensar na morte. É que a vida sem sol e o dia sem céu fazem mais cinzenta a tristeza com que o mundo encara a morte.
Pergunto-me, muitas vezes, como é possível viver, olhando a morte como o fim? Que sentido teria a vida, se tudo acabasse na morte?
É que, se a morte fosse o fim, a vida seria, toda ela, uma condenação, um longo e insuportável caminhar para o abismo do nada.
Se assim fosse, restava-me fazer como tantos fazem, distraindo-se de si próprios, acelerando a vida numa vertigem que não os deixa pensar no passado ou no futuro, mas tão só no louco instante do momento.

(anónimo)

Este foi o texto escolhido para que eu lesse, pela morte de um grande amigo, que me acompanhava há mais de dez anos e com quem eu contava em todas as ocasiões. Ele sabia bem que também podia contar comigo.
André, prometi-te o que os dois sabemos. Sempre nos entendemos, sei que sabes que o farei, a todo o custo.
Vais fazer falta. A todos os que tiveram o prazer de conviver contigo, a todos a quem dirigiste o sorriso lindo que tinhas. É assim, a sorrir, que te vamos lembrar. E a verdade é que, enquanto nos lembrarmos de ti estarás vivo nos nossos corações.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os versos que te fiz

Foto de Janusz Taras



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer,

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Se soubesses que só irias viver mais um dia, o que farias?

Foto de Matusciac Alex

A propósito dum recente acontecimento familiar, comecei a pensar no que faria se soubesse exactamente quando iria falecer. Não que tenha medo da morte. Ou que sofra por saber que, um dia, será a minha vez. Como costumo dizer, quem morre de véspera é o peru de Natal e eu quero viver cada segundo da vida intensamente.
Se, por qualquer razão mística ou prática, eu soubesse que só iria viver mais um dia, acho que o iria aproveitar para várias coisas.
Começaria por telefonar a todos os amigos. Não para me despedir, mas para lhes dizer o quanto gostava deles e o quanto estava grata por os ter conhecido. Sinto-me bem comigo mesma e estou certa que, cada um deles, à sua maneira contribuiu para esse facto.
Depois iria ter com a família. Somos muitos, unidos, especiais no carinho que nos une em todos os momentos, mesmo quando estamos de candeias às avessas e prontos a discutir uns com os outros. Gostava que tantas outras famílias fossem assim, que se amassem até na discórdia. Por sermos diferentes, discordamos. Por nos amarmos, aceitamos que o somos. Mesmo quando não concordamos com as opções tomadas, respeitamo-las e aceitámo-las.
O resto do tempo estaria com os meus filhos. Tentaria explicar-lhes que não deveriam sofrer em demasia com a minha partida, que a deviam aceitar como inevitável e que, enquanto se lembrassem de mim, eu estaria viva nos seus corações e nas suas mentes. Pediria ainda que se mantivessem unidos e que se lembrassem sempre de se respeitarem um ao outro. Tentaria mostrar-lhes o quanto os amo e o quanto eles significam para mim. Relembraria também que deviam doar os meus órgãos, que se pudessem aproveitar, para outros doentes pudessem deles usufruir e, quem sabe, ajuda-los a sobreviver ou a ganhar qualidade de vida. O que restasse do corpo deveria ser cremado, e as cinzas deitadas na serra da Arrábida ou em Sesimbra, no mar.
Gostaria ainda de, num só dia, ter tempo para contactar todas pessoas para lhes pedir que me desculpassem de tudo o que tivesse feito, que, de alguma forma, os tivesse magoado e, se ainda fosse possível, pedia-lhes que se lembrassem só do melhor de mim.
E dentro das limitações de tempo, partiria com o sentido do dever cumprido e com pena do tempo que perdi nesciamente…
E tu? Se soubesses que só irias viver mais um dia, o que farias?

sábado, 29 de agosto de 2009

Desespero

Foto de Kenvin Pinardy


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

Ary dos Santos