terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Serenamente


Foto tirada no Gerês, por mim

Na carreira de tiro,
Em tapete verde alcatifado
Vereda a cair
Nas varandas do Gerês,
Serra que escorrega,
Desfalece na corrente do Homem
Rio, que rasga granito
Impetuoso e vibrante.
Colhi uma flor
Que arranquei pela raiz
Flor de campo,
Bravia e cheirosa
Que a rola branca
Debicou.
Alva pena me deixou
Em troca da flor
Que me levou.
E como é linda e macia!
Nem se devia chamar pena
Se pena se chama
Às mágoas da alma.
Vai rola branca
Entrega a minha flor ao vento…
José Alberto Valente

domingo, 28 de dezembro de 2008

Uma mulher vestida de aurora boreal

Foto de Andrei Safronov


Eis que surge sobre as brumas do inverno
Uma Deusa acompanhada por Júpiter
Que foi um filho salvo por uma pedra
Protegida por um leão correndo pela terra
E uma águia observando-a pelo infinito céu
Vestida pela luz que emana da Aurora Boreal
Trazendo na essência a temperança
Com sua Arte mais preciosa e alquímica
Enfeitada nos cabelos por ramos de alecrins
Coroada por uma coroa de marfim
Simbolizando o encontro do Sol e da Lua
Como no sonho de uma Pedra Filosofal
Descansando diante de um ribeiro manso
Seus olhos provam a visão do fogo
E tudo o que toca com o olhar, vira ouro
Na sua mão esquerda segura a copa de prata
Da Rainha sábia do mundo cabalístico
Na sua mão direita segura uma lança
Do Rei Salomão, sob a forma de uma tocha acesa
Iluminando sua visão diante das sombras
Do seu pescoço desce um fio de ouro
Com o símbolo do Yin e Yang do Tao
Alimentando a simbiose da sua alma universal
Levando sua mensagem pela Rosa dos Ventos
Quando surge o arco-íris no Oriente e Ocidente
Seus pés caminham sobre a superfície lunar
Pelos caminhos das provas mais difíceis
Por onde o coração, a mente e a alma passam
Transformando-a numa Deusa Mãe
De todos aqueles que ainda possuem
Um coração de criança pulsando em si
À sonhar por toda existência da eternidade




Este poema foi feito pela minha querida aluna Helen de Rose, que o dedicou a mim.
Aprendi, com este poema, a lenda de Júpiter que ainda hei-de trazer a este blog. Obrigado Helen pelo teu carinho
.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Injustiça

Foto de Liva Rutmane

Deixa-me. Quero gritar
libertar os meus ecos
dessa injustiça que não sentes
quero. Mesmo que não saibas.

O mundo não parou
na lágrima que derramei
só a minha emoção se despiu
despindo toda a injustiça.

Sabes ver o meu sorriso?
Afinal, a injustiça, ficou aprisionada.

Este poema foi-me dedicado pelo meu amigo Paulo Afonso Ramos numa época conturbada. Felizmente resolveu-se tudo a contento e ele foi, sem dúvida alguma, um dos meus alicerces.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A outra face do Natal

Foto de Gundega Dege

Ceia de Natal, Confraternização. Troca de presentes. Festa de Ano Novo. Brinde. Beijos e abraços. Repleto de ritos sociais, o encerramento do ano é uma época que reforça o sentimento de solidão em muitos de nós. Até mesmo quem gosta de viver só durante o ano inteiro está sujeito a ser invadido por um desconforto inesperado ao perceber que não sabe com quem partilhar o peru de dia 24 ou o champanhe de dia 31. O golpe de solidão que chega com a última página do calendário não é exclusivo de quem está, literalmente, sozinho durante as datas festivas. Há aqueles que, no meio de ruidosos encontros familiares ou empresariais, mal conseguem disfarçar o mal-estar e a sensação de inadequação.
O Natal é um período consensualmente considerado de alegria e esperanças optimistas. Por norma é assim mas, para muitas pessoas, pode ser uma época muito triste e fazer-se acompanhar por sentimentos de solidão, desamparo e desânimo. A alegria, imposta pela sociedade, torna-se desconfortável para quem não consegue pôr de lado a angústia. O desgaste provocado pelo esforço em contemplar tudo e agradar a todos faz disparar os níveis de ansiedade numa escalada ascendente assim que surgem as primeiras propagandas de Natal e Ano Novo.
A "tristeza do Natal" é comum durante o frenesim de Dezembro ao fazermos balanços e projectos. Aquela que para muitos de nós é a época mais feliz do ano, para outros é precisamente o contrário. O Natal e os encontros de família podem transformar--se em momentos tristes e difíceis de suportar, especialmente se a pessoa já está deprimida. Paralelamente, nos meios de comunicação social é vendida urna mensagem que difere da realidade que a maioria das pessoas vive e sente, sobretudo num período de crise económica, desemprego, violência e incertezas em relação ao futuro. Não é raro ouvirmos comentários negativos em relação aos preparativos do Natal, traduzidas pelas célebres frases "Detesto o Natal" ou "Odeio quadras festivas".
Muitas vezes, o sentimento de desamparo e desânimo é provocado por datas que nos trazem lembranças tristes, seja por perdas, como a de entes queridos, separações, desemprego ou doenças. Todos esses factos provocam o que podemos chamar de tristeza natural. Entristecer não é deprimir. É a consciencialização da situação ou condição que não aquela que gostaríamos que fosse, independentemente de ser ou não fantasiosa. Afinal, todo o ser humano tem momentos de tristeza, faz parte da vida.
Mas, na generalidade, a "tristeza do Natal" é sazonal, de duração breve, decorre durante alguns dias ou semanas e, em muitos casos, termina quando as férias acabam e quando se retorna à rotina quotidiana. O mais importante é permitir a si próprio estar triste ou saudoso. Esses são os sentimentos normais, particularmente na época do Natal.
Porém, mesmo para quem é difícil contornar esta quadra, é importante tomar consciência de que esse sentimento é mais comum do que se imagina e de que há formas de superar a tristeza e angústia, e readquirir, pelo menos em parte, o espírito natalício. Deixar de lado projectos "extraordinários", propor-se objectivos realísticos, organizar o próprio tempo, elaborar listas de prioridades, fazer um plano e segui-lo, exercitar o pensamento positivo, são truques ao alcance de qualquer um.
Enfim, o segredo reside na capacidade de sair da ritualidade muito "litúrgica" das festas e procurar inventar novas maneiras de celebrar o Natal e o Ano Novo.
E porque não?… Ser solidário e desejar a paz ao resto do mundo!

Cláudia Fernandes

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Clamor ao amor

Foto de Lutz Honermann

Toca o vento,
Vivaldi à minha alma vibrante,
Canta a chuva,
os meus poemas de paixão,
Do meu espírito,
A torrente amorosa, o coração,
Mais alto,
que o voo de uma águia, distante!...

No meu sangue,
correm meus sonhos dispersos,
Pulsar agonizado,
do meu coração ardente!...
Num clamor de loucura,
soltam-se os versos...
Quando eu sonho,
o amor do Zeus divinamente...

Batida em fúria,
por muitos vendavais,
Mãos cheias de amores,
Rosas e beijos florais...
Quem foi que me deu,
este poder de tanto te amar?
Se depois não me deu,
braços para te alcançar?

(Luisa Raposo)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

À Pedra Filosofal

Foto de Konrad Jacek Jedrzejczak

Pedra nobre, bela, pura,
Em teus olhos encontrei amizade
Da mais verdadeira que existe.
Rara pedra, de tão pura,
Amiga do meu coração!

Força e beleza engrandecem,
Iluminam o teu ser,
Luz de encanto, grande estrela
Orgulho-me de te conhecer!
Sem ti éramos mais pobres
O dia não teria tanto encanto,
Faltaria cá o Sol.
Amigas como tu são raras,
Levar-te-ei sempre no coração!

A ti Pedrinha! Porque mereces por seres quem és e como és!

Por diversas ocasiões fui brindada com poemas e/ou cartas de amigos(as). Mimos que me deixaram sem palavras. Resolvi partilhar com todos esses mimos. São verdadeiras pérolas, que merecem, sem dúvida, destaque, não por me serem dedicados mas porque os autores e autoras que os escreveram tem bastante qualidade.
O primeiro só podia ser este, escrito pela Vera Silva e que podem ler no seu ambiente natural em
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=51043
Vera, obrigado por este mimo, tem especial significado para mim dado a altura em que o fizeste. Foi o principio do fim duma história surrealista em que estive envolvida e que, com a tua ajuda, consegui superar da melhor maneira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Antologia Luso-poemas


A edium editores, tendo editado durante este ano diversos Luso-Poetas, tem agora o prazer de anunciar a publicação da Antologia Luso-Poemas 2008 em associação com o fórum Luso-Poetas. A edição segue o modelo da colecção versoREverso da edium editores embora, neste caso, sirva apenas para separar as diferentes contribuições dos Luso-Poetas, ora em poesia ora em prosa. Este ano a antologia conta com a participação dos seguintes autores: Alemtagus, Betha M Costa, Carla Costeira, Carlos Carpinteiro, Carlos Said, Carolina, Cleo, Conceição B, Daniela Pereira, Expanta, Flávio Silver, Fly - Marta, freudnaomorreu, Gilberto, Godi, Goretidias, Henrique Pedro, João Filipe Ferreira, João Videira Santos, José Torres, Júlio Saraiva, Karla Bardanza, Le Tab, Ledalge, Luís Ferreira, Margarete, Maria Sousa, Mel de Carvalho, Noite, Paulo Afonso Ramos, Pedra Filosofal, Rosa Maria Anselmo, Sandra Fonseca, Tália, TrabisdeMenta, Tytta, Valdevinoxis, Vera Carvalho e Vera Silva. A apresentação da antologia decorrerá durante o III Encontro Luso-Poemas a decorrer em Lisboa, no próximo dia 13 de Dezembro.
Para mais informações visite o sítio Luso-Poemas em http://www.luso-poemas.net/
Informações adicionais
Dia: 13 Dezembro 2008 às 15h
Local: Campo Grande, nº 56 em Lisboa
Como chegar:
Autocarros – 36, 21, 45, 38
Metro/Comboio – Estação de Entrecampos
Mapa
http://codigopostal.ciberforma.pt//codigo_postal.asp?n=109684

sábado, 6 de dezembro de 2008

Luso do mês - Dezembro 2008

Introdução

Magda... conhecem? E a Pedra Filosofal? Naturalmente, todos conhecem.
Pois é, é este o derradeiro destaque do Luso (pelo menos no formato actual). Não há distinção mais merecida nem pessoa mais merecedora do que esta, que é colaboradora, foi moderadora e administradora e é, sem qualquer dúvida a pessoa mais presente do Site. Empenhada, sem gostar de deixar as coisas penduradas, foi durantes largos
períodos o peso e contra-peso do funcionamento do Luso-Poemas.

Dedicou-se e continua a dedicar-se a este espaço, com empenhamento raro, com uma militância tal que nos transforma, facilmente, em culpados de fazer pouco.
Não se trata de um elogio, trata-se sim de uma constatação: a Pedra Magda Filosofal é magna, é, sem ponta de dúvida, uma pessoa ímpar e de excepção.
Na noite da entrevista pescámos o Freud que andava a nadar por ali e transformá-mo-lo no convidado surpresa para entrevistar a nossa ilustre. O rapaz juntou-se aos “perguntadores”, improvisou e o artigo resultou no que vão ler em seguida, logo depois da pequena autobiografia da Pedra.

Biografia

Magda Pais nasceu a 26 de Novembro de 1969, na Maternidade Laura Seixas, na cidade do Barreiro, onde sempre viveu.
Casada com Miguel, tem dois filhos preciosos: Margarida e Martim, que completam o elo familiar daquela casa, dando o belíssimo exemplo da verdadeira família feliz.
Quase que, desde o berço que foi acompanhada pela presença dos livros, uma vez que os seus pais lhe queriam incentivar o gosto pela leitura. Logo que aprendeu a ler, tornou-se uma leitora quase compulsiva, e, depressa impôs aos seus pais e tios, que as suas prendas, nas épocas festivas, fossem livros, que devorava.
Já na escola, e antecipando-se ao Plano Nacional de Leitura, os professores que a acompanharam souberam aproveitar esse gosto e até incrementá-lo, de tal modo que continua a ser uma fã incondicional da leitura, o que a torna numa cliente assídua de livrarias, e que facilita a escolha de prendas.
Hoje, Magda está empenhada em passar essa herança aos seus filhos. Possui uma casa recheada de bons livros, que abrangem várias linhas editorais e de diversos autores.
A sua vida profissional é preenchida pela banca, onde tem o privilégio de, entre outras coisas, atender ao público, experiência que, pela sua diversidade, lhe dá uma grande vivência social e que considera uma mais-valia.
A Internet também está associada a sua vida. Quer pela curiosidade de aprender ou pelo simples gosto em ler, andou por sites até que, um dia, descobriu um que viria a ter grande relevância para si. www.luso-poemas.net
Neste site acumulou leituras de poesias e prosas, numa dita escrita criativa abrangente e ao jeito de toda gente. Algures, no mês de Novembro de 2007, deu, nesse site, timidamente, os seus primeiros passos na escrita com pequenos contos e boas crónicas.
Desempenhou, no luso-poemas, a função de moderadora com entusiasmo sendo, pouco tempo depois, convidada para pertencer à administração em vigor no site, num prémio justo pelo empenho, dedicação e esforço demonstrado em prol da literatura e daquele site em especial.
Mais tarde participou na colectânea “A arte pela escrita”, editada pela ArtEscrita, comemorativa do 1º aniversário do site www.escritartes.com, que também frequenta com assiduidade.
É na sua casa cultural do mundo da blogosfera que divulga excelentes autores e que escreve, tornado assim num local especial, acolhedor e numa referência para visitar, ou não fosse aquele o seu próprio espaço feito de palavras que se misturam com o carinho da autora. O seu blogue chama-se StoneArtPortugal – Pedra Filosofal, nome ou nick-name como é conhecida no mundo virtual da literatura e pode ser visitada em http://stoneartportugal.blogspot.com/
Abraça novos projectos na escrita, quer como autora ou como dinamizadora de eventos e, no corrente mês de Dezembro, irá participar na “Antologia Luso-poemas 2008”, que conta com a chancela da Edium Editores.

Entrevista

Paulo Afonso Ramos – Pedra Filosofal, qual é balanço que fazes da permanência no Luso-poemas?
Pedra Filosofal – O balanço é francamente positivo. Nem eu fazia ideia alguma que tinha encontrado um site que ia mudar quase que radicalmente a minha vida. Senão vejamos. Quando me inscrevi no luso não escrevia. Aliás, escrevia. Cartas comerciais, actas e essas coisas ditas normais. Um ano depois já publiquei uns quantos textos (maioritariamente crónicas). "Culpa" de alguns utilizadores do lusos, claro, que me foram incentivando. Logo ai se nota uma mudança. Depois encontrei, no luso, pessoas que se tornaram parte indispensável dos meus dias. Amigos que, quando me lembro que os conheço só há um ano (alguns menos) penso que devo estar a ver mal o calendário. Por outro lado e dado que tenho cada vez menos tempo para me entregar aos prazeres da leitura, tenho, no lusos, a possibilidade de ir fazendo o "gostinho ao dedo" e ir lendo. Claro que houve (e há) coisas menos agradáveis, mas essas, sinceramente, são uma gota de água no oceano. Completamente insignificantes. Mas com a vantagem de servirem para apreciar, ainda mais, os bons momentos que tenho passado com o site.

Valdevinoxis – Já voltamos ao Luso, Magda. Para já gostaria que nos dissesses: porquê Pedra Filosofal?
Pedra Filosofal – Porque o sonho comanda a vida, certo? Quando me inscrevi no luso-poemas era necessário encontrar um nick. Usava (e uso) na internet, há quase 12 anos, o nick Lea. Mas não o queria usar no luso-poemas. O poema "Pedra Filosofal", de António Gedeão, é um dos poucos que sei de cor. E a frase "O Sonho comanda a vida" é quase que a minha filosofia de vida. Quem me ajudou a escolher o nome, o Luís F, sabia disso. E, quando eu andava na dúvida que nick haveria de escolher, ele deu-me várias sugestões, entre elas "Pedra Filosofal". Soou-me bem. Não pedi mais sugestões e meti as minhas ideias de parte. Registei-me logo com esse nick.

Vera Silva – Participaste nos dois encontros do Luso-Poemas. Agora que se prepara o terceiro, que balanço fazes destes encontros de poetas, e qual a motivação que queres passar a todos para que participem mais activamente nestes encontros?
Pedra Filosofal – Oras... mas há lá coisa melhor, para quem frequenta o luso-poemas, do que participar nos encontros? São excelentes oportunidades para se conhecer quem está por detrás dos avatares e da escrita. Excelentes oportunidades para se desfazerem más impressões dos outros utilizadores. Uma das coisas que o luso-poemas tem, para mim, é que é um site feito de pessoas e para pessoas e, acima de tudo, com pessoas. Somos pessoas de carne e osso (algumas mais carne que osso, como é o meu caso) e que, como tal, devem deixar o virtual de parte e participar nestes encontros. Pelas fotos que temos mostrado podem ver o quanto nos divertimos. Recomendo, vivamente, a participação em todos os encontros que haja (e que a distância permita, claro).

Freudnãomorreu – Entre o clássico "já peca por tardio" e o insípido "não estava nada à espera"... Optas pela massificação do luso via hi5 literário ou sugeres uma forma mais dietética?
Pedra Filosofal – Eu prefiro um luso mais dietético. Já existe um HI5 do luso-poemas, na sua própria atmosfera - o site do HI5. O luso-poemas deve ser um site de escrita e de partilha da escrita. Claro que é impossível que não haja relacionamentos a nascer no site, mas que não têm de se reflectir no seu normal funcionamento. O facto de partilharmos o mesmo espaço é simples. Somos apenas colegas de escrita, num site. Nada mais que isso. Faz-me alguma confusão (e, se calhar, vou ser mal interpretada) a utilização da palavra "amigo" no nosso perfil. Pela mesma razão que me faz confusão, no site do HI5, constar que sou "amiga" de sei lá quantas pessoas com as quais nunca troquei uma palavra. As amizades podem nascer no lusos (e eu confirmo que sim), mas as amizades constroem-se e florescem no convívio do dia-a-dia e não porque estamos no perfil de alguém como amigo. Já quanto ao "peca por tardio"... Essa expressão tem sido muito usada aquando das entrevistas do luso do mês. De facto é verdade. Todas têm pecado por tardias. Mas também é verdade que só há 12 meses no ano, e umas dezenas de utilizadores que merecem esta distinção... não é, portanto, possível, que sejam todas no tempo certo.

Paulo Afonso Ramos - Fala-nos de ti, da parte onde o Luso-poemas não entra. Consegues ter essa parte e consegues contar-nos?
Pedra Filosofal – Hoje em dia o luso-poemas está em quase toda a parte da minha vida. Até os meus filhos já vão lendo algumas coisas do site. Mas tenho uma vida para lá do lusos. Uma vida profissional bastante preenchida. Adoro o meu trabalho no banco, há 17 anos que tenho um ambiente de trabalho fabuloso, gosto muito do que faço e adoro atender ao público. Detesto monotonia e, com o atendimento ao público, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir.
Sou secretária num agrupamento de escuteiros, onde comecei a minha vida escutista há 25 anos atrás e para onde voltei há 4 anos atrás.
Tenho uma família enorme. Pais, sogra, avó, tios e tias, irmãs e um irmão, cunhados, sobrinhos e sobrinhas e, claro, marido e dois filhos (lá por estarem em último não quer dizer que não sejam os mais importantes). Somos uma família muito unida e que estamos sempre presentes em qualquer ocasião.
E depois os amigos, que são uma parte super importante de mim. Alguns mais antigos, outros mais recentes, todos importantes e todos com o seu lugar cativo.

Valdevinoxis – Aludindo a uma recente patacoada muito empolada no parque político português e adaptando-a ao Luso, não seria útil suspender a forma livre do site durante algum tempo? Por outras palavras, não será a grande abertura do Luso uma vertente quase anárquica e potenciadora de abusos? Pergunto ainda se não te parece que o Luso está a ser mal utilizado por alguns e que, como administradores, não fomos efectivos nesse ponto?
Pedra Filosofal – Sem dúvida que sim. Sempre achei que devia haver mais "mão firme" no lusos. Não uma ASAE da escrita, como alguns já defenderam. Mas sim uma espécie de policia, que impedisse que existissem abusos. Irrita-me solenemente que alguns utilizadores provoquem outros, sem respeito pelo facto de estar um ser humano do lado de lá do escritor. Há muita gente no luso-poemas que está a querer auto promover-se e, nem sempre, da melhor forma. Não tenho nada a obstar à auto promoção, desde que feita com respeito pelos outros. É claro que também há uma liberdade de expressão no lusos que não há noutros sites.
Dizia Voltaire que "posso não concordar com o que dizes, mas defenderei, até à morte, o teu direito de o dizeres". E, no lusos, há essa liberdade. Mas a liberdade de uns não pode contrariar a liberdade dos outros. E é isso que se tem passado no lusos. Tem havido abusos e que deveriam, de alguma forma, ser controlados. Caso contrário perde-se a identidade do site. E sim, a administração cessante teve algumas culpas nesse aspecto. Fomos demasiado permissivos.
Houve vários casos de faltas de respeito a utilizadores a que fizemos ouvidos moucos, porque não queríamos ferir susceptibilidades. Não quisemos ser polícias nem quisemos assegurar o cumprimento das normas estabelecidas. Se o tivéssemos feito, se calhar teríamos evitado algumas polémicas... É claro que não há certezas que esse policiamento tivesse funcionado. Infelizmente confiamos que os utilizadores cumpririam as regras... mas isso não aconteceu. Mas também acredito que se aprenda com os erros, não necessariamente com os nossos. Podemos aprender com os erros dos outros. E penso que isso aconteceu e que o Trabis agora estará mais atento a esses detalhes.

Vera Silva – Magda, sendo tu uma pessoa que, como já nos disseste, se iniciou há pouco na escrita, e aqui neste nosso site, mas sempre em prosa... Arriscaste alguns duetos em poesia. Para quando um poema realmente TEU? E sendo tu uma leitora compulsiva, qual o estilo que realmente preferes?
Pedra Filosofal – Eu não sei escrever poemas. Já tentei mas não consigo. Falta de capacidade de síntese, acho. Prefiro a prosa em que me posso alargar. Já que sou faladora, é mais fácil escrever prosas. Mas, se repararem, as minhas prosas tem muito de real. São, na sua grande maioria, relatos de situações pelas quais eu já passei ou alguém que conheço passou. Os dois únicos contos que escrevi são relatos da vida. O primeiro foi, quase que, passar para o papel a história dos meus avós maternos que toda a vida ouvi. Depois tentei repetir a proeza mas desisti. Gosto de escrever prosas, mais especificamente crónicas. É o estilo onde me sinto à vontade. Ah, mas há que dizer que também já fiz um terceto. Um poema a três, com a Vera e com o Paulo.
Sou, de facto, leitora compulsiva. Estou até proibida, por mim, de entrar em livrarias. Desvio-me, nos hipermercados, da zona dos livros. Porque eles colam-se às minhas mãos e é uma carga de trabalhos para se descolarem. E depois leio-os a todos. E quando estou a ler, bem que pode rebentar a terceira guerra que eu não dou por nada. Já cheguei a proibir-me de ler na cama porque, quando dava conta, eram horas de me levantar para ir trabalhar e eu tinha passado a noite a ler.
Quanto ao estilo... bem, prefiro a prosa à poesia (talvez isso também contribua para que me sinta mais à vontade a escrever prosa). Mas leio de tudo. Compro os livros pelos títulos e não pelo conteúdo - esse descubro depois, aos poucos, enquanto vou lendo. Já tive agradáveis surpresas e profundas decepções. Mas leio-os sempre até ao fim, caso contrário não os posso avaliar convenientemente... bem, excepção feita para o "viagens na minha terra" que não passei do primeiro capítulo.

Freudnãomorreu – Fala-nos mais de ti... qual o nível de triglicerídeos nas palavras? Quantas passas de esperança engolirás? Calçarás o amor como forma de correr a vida?
Pedra Filosofal – As últimas análises ao sangue que fiz diziam que os triglicerídeos estão nos níveis normais... logo devo ser normal, dentro do que quer que seja a normalidade. Amor (e já agora uma cabana) todos queremos ter na vida. Sou romântica, é certo e tenho esperanças num mundo melhor, não para mim, mas para os meus filhos. Mas não preciso de fazer alarido disso, todos os dias, a toda a hora e a todo o instante. Não gosto de excessos, em nada. Ajudar o próximo, sim, mas com acções, não com palavras. Amar sim, mas com gestos. Não com palavras. Amizade sim, mas que se prove com atitudes. Acho que se deve agir em conformidade com o que se diz e não dizer uma coisa e fazer outra. É claro que, se pudermos juntar as palavras aos actos, perfeito.

Valdevinoxis – Na minha opinião tu és, possivelmente, o utilizador do Luso mais influente, tanto em termos de presença como de intervenção nas mais variadas situações. Em muitas ocasiões, ao analisar a tua acção, verifiquei que não consegues abstrair-te de um formato de trabalho, ou seja, a minha questão é se tu és, por natureza, uma pessoa de militância? Se tivesses que te caracterizar, como o farias?
Pedra Filosofal – Eu abracei o Luso-poemas como abraço os projectos de que gosto. Não gosto de fazer as coisas por metade. Ou estou ou não estou. Se estou dou tudo o que posso e que me é permitido. Sou uma pessoa de fortes convicções, e que as defende com unhas e dentes. Tento sempre dar o melhor de si em todas as situações. Nem mais nem menos que o melhor que posso e sei. Militância sim, mas na senda da qualidade. Não gosto de falhar e nem de desistir. Sou, talvez, um bocadito exigente demais comigo e com as pessoas que me rodeiam, o que, às vezes, é mal entendido. Também não gosto de tomar partidos sem ouvir todas as partes. Não gosto de conflitos, tento evitá-los a todo o custo e tento resolvê-los, se me é permitido, sem intervir publicamente. Prefiro o trato em privado. Mas também gosto que respeitem a minha privacidade. Basicamente considero-me uma pessoa simples. Estou bem comigo, logo estou bem com os outros.
Vera Silva - Têm nascido e crescido grandes autores no luso-poemas, que, imagino, que tens acompanhado de perto. Como vês esse fenómeno e quais os que acompanhas mais de perto, como quase crítica literária que és.
Pedra Filosofal – O luso-poemas é quase que um balão de ensaio da literatura. O leque de autores e géneros literários é bastante grande, o que faz com que o site seja melhor que muitas bibliotecas. Desde os pequenos poemas aos romances, desde o escritor pronto-a-vestir, ao escritor alfaiate, temos mesmo de tudo. Eróticos e religiosos a conviver no mesmo espaço literário. Bons, maus, péssimos e excelentes autores a publicar no mesmo site. É, de facto, um site que pode servir de trampolim para voos mais altos. E já temos vários autores que sonhavam editar um livro e que só o fizeram depois de publicarem no lusos.
Há autores, no lusos, que eu tento acompanhar assiduamente. Às vezes não tão assiduamente como gostaria, mas faço os possíveis. José Torres, Paulo Afonso Ramos, Vera Silva, Amora, Sandra Fonseca, Improvável Poeta, GE3, Vanda Paz, Freudnãomorreu, o Valdevinoxis e a Rosa Maria.
Depois também posso recomendar a Betha, Maria Sousa a Helen de Rose, a Ledalge, a Vony, a Margarete (que espero volte em breve), a Carolina, o Flávio Silver, o Jaber, o Trabis, Alemtagus, Henrique Pedro, a Mel Carvalho, o Xavier Zarco, a Cleo e AnaLuiza... mas há mais que leio, muito mais... eu tento ler o máximo que posso, sinceramente tento. Não comento muito, mas leio bastante e torna-se difícil mencionar aqui todos os que leio.

Vera Silva – Uma última mensagem que queiras deixar aos luso-poetas.
Pedra Filosofal – Em vez de uma, vou deixar duas. A primeira é mais um agradecimento que uma mensagem. No dia do meu aniversário fui surpreendida com diversos textos colocados, quer no lusos, quer em blogs, quer no Escritartes, a felicitar-me pelo dia. Quer os textos, quer os comentários deixaram-me a pairar nas nuvens. Não consegui, até agora, ter palavras ou forma de agradecer a todos quantos o fizerem. Aproveito, por isso, esta ocasião para dizer a todos vós que me deixaram muito feliz e que tornaram este dia de aniversário especial. Obrigado do fundo do coração. Nunca poderei agradecer devidamente ou sequer retribuir, como merecem, o carinho que me dispensaram.
A segunda mensagem é mais um repto. Participem no III Encontro do Luso-poemas em Lisboa. Vai ser um dia memorável. Quem sabe, havendo uma boa participação, os luso-poetas no Brasil se entusiasmem e organizem o seu encontro em terras de Vera Cruz.



Obrigado ao luso-poemas.net por este destaque. Se quiserem ler a entrevista no seu "ambiente" podem fazê-lo através do link - http://www.luso-poemas.net/modules/smartsection/item.php?itemid=398

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Desejo Primeiro



Foto de Antanas Strazdas

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exacta para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afectos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Vitor Hugo

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pequena carta à minha mãe


Foto de Linda Veit

Mãe, hoje o dia é teu,
Este dia em que és criança
Feliz, de brilho no olhar,
Coração recheado de esperança
Em tudo o que a vida prometeu.

Não fui o filho que querias,
O doutor, juiz, professor,
Mas sou um filho que te ama,
Que sente ainda o teu calor
Naquele sorriso que me fazias.


Fernando Saiote

Será apresentado no próximo dia 29 de Novembro, pelas 18.00 horas, a obra poética de Fernando Saiote intitulada “Pedras Soltas”. O evento decorrerá no Auditório da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Vila, em Montemor-o-Novo. Obra e autor serão apresentados pelos Prof. João Luís Nabo e Prof. Vítor Guita.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Supercalifragilisticexpialidocious

Ontem chovia e a minha filha, ao pegar no chapéu-de-chuva, disse-me “oh mãe, ainda levanto voo com o chapéu, por causa do vento”. Lembrei-me logo da Mary Poppins. Sabem, aquele filme muito antigo, da década de sessenta... do século passado (como me sinto velha ao pensar assim...).
Lembrei-me ontem do filme e hoje, numa espécie de revolta familiar, decidi que íamos ver parte do filme enquanto jantávamos. Revolta familiar porque cá em casa a regra é – não há televisão aos dias de semana. Mas hoje, por causa da Mary Poppins, contornamos as regras e sentamo-nos a ver o filme.
O meu marido achou que ia ser um fracasso. Um filme com quase 40 anos a tentar captar a atenção de duas crianças de sete e cinco anos? Sem super heróis, falado em inglês... eles não iam aguentar nem dez minutos.
Sentamo-nos os três, cada um com a sua pizza à frente (já que se contornam as regras, ao menos que se contorne tudo), e lá começou o filme.
Eu, que conheço o filme de trás para a frente, ri-me como se o estivesse a ver pela primeira vez. Aquela cena em que o Comandante dá as 18 horas com um tiro de canhão e todos têm de ir aos seus lugares para segurarem os tarecos da casa fez-me sentir uma criança de novo. Os meus filhos, que nunca tinham visto o filme, estavam deliciados.
Claro que as cenas se foram seguindo, com mais ou menos magia... desde a mala de viagem da Mary Poppins donde saem candelabros, espelhos ou plantas, à viagem pelo quadro que termina quando começa a chover, passando pela corrida de cavalos, que termina com a canção supercalifragilisticexpialidocious.
Quando acabamos de jantar, e porque amanhã é dia de aulas, tive de desligar o filme antes de ter terminado. Mas os meus filhos continuaram a quer saber mais sobre a Mary Poppins. Acho que esta noite, em vez de terem os sonhos habituais com os super heróis do momento, vão sonhar com aquela que foi uma das minhas heroínas em criança. E que bem que me sinto por saber que eles gostaram. Que um filme tão antigo, com pouquíssimos efeitos especiais (na óptica dos dias de hoje, claro) consegue continuar a encantar crianças, tal como o fez na altura da estreia. Hoje sinto-me supercalifragilisticexpialidocious. Porque, na companhia dos meus filhos, pude voltar a ser criança.
Amanhã, quem sabe, iremos ver o Música no Coração...

domingo, 23 de novembro de 2008

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Foto de Irina Todorova

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
(Garcia Lorca)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Brisas do Mar


Quadro a óleo pintado por Helena Paz

Embriaguei-me
nos pensamentos
nas palavras
nos sentimentos…
Senti
o cheiro de flores
que chegam
de um mar
verde de esperança.
Abracei
essa brisa
e entreguei-me
à sedução das palavras.
Fecho os olhos
e adormeço… serena.

Vanda Paz


Com a chancela da Edium Editores, no próximo dia 23 de Novembro, pelas 15.00 horas, no Museu do Vinho da Bairrada em Anadia, será apresentada a obra “Brisas do Mar” da poetisa Vanda Paz. A autora, enóloga de profissão, nasceu em Lisboa em 1970 e reside na Anadia. A apresentação estará a cargo de António Paiva. A 21 de Novembro, sexta-feira, pelas 21 horas, a obra será pré-apresentada em Santarém no auditório da Escola Superior Agrária.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Pedro e o Lobo



Foto de Karen Seagle

Lembram-se da história de Pedro e o Lobo? Um conto infantil, escrito por Sergei Prokofiev, e que nos traz a história de Pedro, um pequeno pastor que vivia afastado dos outros meninos da aldeia onde vivia. Um dia Pedro, por se sentir sozinho, resolve chegar à aldeia e dizer que vinha um lobo a caminho para comer os animais. Toda a aldeia se mobiliza contra o dito lobo… que não aparece. Pedro tinha mentido porque queria atenção. Chamado à atenção promete não voltar a fazer. Só que foi sol de pouca dura e pouco tempo mais tarde volta a repetir. Grita que vem um lobo a caminho, a aldeia junta-se em defesa dos seus animais… mas de lobo nem sinal. Mais uma vez Pedro é repreendido pela sua atitude e compromete-se a não fazer. Só que fez. Fez mais uma, mais duas…. Até que, um dia, um lobo aproxima-se mesmo do rebanho que Pedro guardava. Pedro, assustado, corre até à aldeia a pedir ajuda… mas ninguém na aldeia acredita nele. Acham que é mais uma mentira de Pedro para chamar a atenção. Quando Pedro volta para o seu rebanho, já a alcateia tinha matado quase todo o rebanho.
Num só conto Prokofiev traz-nos várias lições de moral. Primeiro que não devemos mentir. Se mentirmos, um dia podemos dizer a verdade e ninguém vai acreditar em nós. Por outro lado, e mais grave ainda, é quer chamar a atenção para nós próprios em detrimento de tudo o que nos rodeia. Um dia essa necessidade de chamar a atenção pode levar-nos a perder todo o que temos.
Um conto antigo, mas intemporal.
Vejamos vários exemplos de como esta história devia ser interiorizada por todos, sem excepção.
- Vou deixar de cantar - Sou fã de Pedro Abrunhosa. Nos seus primeiros tempos, fui a quase todos os concertos dele. Num dos concertos Abrunhosa anunciou que ia deixar de cantar e que o último concerto que ia dar seria no Terreiro de Paço, uns meses mais tarde. Nos tempos que se seguiram a este anúncio, os fãs foram enviando cartas (que ele publicou), foram feitos vários pedidos para que continuasse, enfim, as atenções centraram-se nele. Fui ao concerto anunciado como último e a última frase que ele disse foi – Adeus e até sempre. Ficamos convencidos que tinha sido o último mesmo. Ora bem, isto passou-se há mais de dez anos e, de lá para cá, já saíram mais dois ou três cd’s de Pedro Abrunhosa. Se hoje ele voltar a dizer que vai deixar de cantar… acham que alguém vai acreditar?
- Vou cortar os pulsos – A primeira vez que é dito, amigos e familiares ficam em cuidados, tentam perceber porquê, tentam demover, dar apoio… em suma, dão atenção. Se as ameaças inconsequentes se mantêm, aos poucos, e porque também tem vida própria, com os seus próprios problemas, amigos e familiares deixam de ligar… até ao dia em que até pode ser verdade e já ninguém vai ouvir.
Quem me conhece sabe que uso, com frequência, a seguinte expressão – vou ali matar-me, já volto. Digo-o sempre que estou irritada, com algum problema que, numa primeira análise, é complicado, ou quando vejo coisas que me deixam com comichão na ponta da língua. É claro que, se volto depois, é porque não me vou matar. Certo? Todos sabem disso e até há quem me responda – vai lá que eu espero aqui. Não demores.
Respeito-me demasiado para fazer ameaças que não pretendo cumprir. Aliás, respeito-me demasiado para não fazer ameaças, ponto final. Quando tomo uma decisão, tomo-a em plena consciência e não aviso. Faço. Respeito-me. Respeito‑vos. E tomada a decisão, não volto atrás. Posso arrepender-me. Mas fi-lo e assumo as minhas opções. Sem histórias. Sem invenções. Sem mentiras. Mesmo que não acreditem em mim. Em suma, não sou o Pedro nem vejo lobos onde não os há. Não quero, não creio e nem aceito os Pedro´s desta sociedade de lobos solitários...

domingo, 16 de novembro de 2008

As palavras

Foto de Alex Caranfil

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio Andrade

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Quando me amei de verdade

Foto de Terje Røstum

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome… Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é… Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de… Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é… Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama… Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é… Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei menos vezes.
Hoje descobri a… Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é… Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é… Saber viver!!!
Charlie Chaplin

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Procuro-te (a ti)

Foto de Samiran Paul

Procuro nos teus braços
Ouvir o silêncio do teu sussurro
Tua voz terna e meiga em murmúrios
De riacho na pedra

Procuro na tua pele
Visões de planície sem fim
Suave feno agitado pelo vento
Em afagos perturbadores

Procuro nos teus seios
Generosidade de fêmea
Serras de cumes gémeos
Deslizando para abismos

Procuro no teu ventre esse abismo
Que me deslumbra em movimentos
De mar encapelado, espuma orgástica
Que bate em areia dourada.

Procuro tuas ancas que enfim me aconchegam.
Teus olhos de mar dizem-me
O que os teus lábios calam.
Amor de horizontes, amor sem fim.

(José Alberto Valente)

domingo, 9 de novembro de 2008

Estava eu sentado, perto do mar

Foto de Glen Parker

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.
(Aldous Huxley)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

No princípio era o Sol

Foto de k ng

No princípio era o Sol, o primado do Sol
da resplandecência. A essência
da luminosidade pré-incrita
em desassossegos acordados
de um bando de aves, elevados
num canto divino em cantos ermos e repartidos
e logo povoados na veia dos verbos e dos sentidos.

No princípio era o abraço a explodir virginal
da madre terra em destemperos de gestos primitivos,
em mãos revoltas, de asas soltas,
sem corpos, de um amor abstracto,
sem palco, de feição feérica, de tão ardente.
E logo, logo o medo, e das neves o branco,
e o espanto
e o pranto desordenado
do ar fluido aprisionado em redes irresolutas,
em redes densas.

Depois as crenças, as lutas, a desordem
da veste e do posto, na perda acesa, na insolência
maior de um querer e não querer, no amortalhar
das palavras sem sangue,
sem massa, sem carne, a dissiparem-se
na insolvência de luas e trigos virulentos,
em cores plúmbeas de Sol,
já pétreas, pretéritas e tão presentes.

No princípio era o Sol e as palavras,
e o sonho e a utopia. E todas juntas, em agitações rítmicas
de corpos celestes, de astros alongados, estiolados em cio
na grama, no chão e na chama. Fixados de tão agrestes.

No princípio era o Sol, desenhado redondo de tão exacto
e no final o risco impreciso do precipício do gesto


Mel Carvalho
Com a chancela da Edium Editores será apresentada a 8 de Novembro a mais recente obra da poetisa Mel de Carvalho, “No princípio era o sol”; o evento terá lugar no Salão Nobre do Paço do Sobralinho (concelho de Vila Franca de Xira) pelas 16.00 horas. Obra e autora serão apresentadas por a Prof. Dra. Maria de Lurdes Fonseca e pelo poeta Paulo Afonso Ramos. Mel de Carvalho nasceu em Lisboa no ano de 1961; é licenciada em Sociologia do Trabalho pela Univ. Técnica de Lisboa prosseguindo em doutoramento pela Universidade Nova de Lisboa. Publicou em 2007, “Sibilam pedras na encosta”; regista também diversas participações em publicações antológicas.

sábado, 1 de novembro de 2008

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração

Foto de Torben Thorhauge

Ao longo da minha existência já senti esta mão que se agiganta e que me aprisiona o coração. O coração e o sorriso... apertados, escondidos, presos. Quando me sinto assim esqueço-me de quanto é importante sorrir nos momentos de amargura. Afinal, a vida é tão curta, porque haveremos de ceder à tristeza que nos quer consumir?
Sei que não é fácil. Aliás, diria mesmo que é difícil. Quando nos sentimos tristes com algo ou alguma coisa, por mais que nos tentem dizer para esquecer, ou para relevar, sei que não o conseguimos fazer. Porque a mão que aperta o coração é só a nossa. Somos nós que temos de deixar de fazer força para apertar o coração e começarmos a sorrir de novo. Por mais que nos custe. Porque, acreditem, custa muito estar triste. Custa sentir uma tristeza tal que nos sufoca, que nos deixa sem respirar, que nos impede de pensar e de usar do discernimento que caracteriza o ser humano – ou que, pelo menos, devia caracterizar.
Um sorriso. Um sorriso e saber que temos quem nos dê uma mão para apertarmos em vez de apertamos o nosso coração – eis a receita para que a tristeza diminua.
Título de Adriana Falcão

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Nós

Foto de Martin Camarena
Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo).
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na city, que desterros!

Sem canalização, em muitos burgos ermos
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros armamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

Tínhamos nós voltado à capital maldita,
Eu vinha de polir isto tranquilamente,
Quando nos sucedeu uma cruel desdita,
Pois um de nós caiu, de súbito, doente.

Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
Não sei dum infortúnio imenso como o seu!
Vi o seu fim chegar como um medonho muro,
E, sem querer, aflito e atónito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Com tanta crueldade e tantas injustiças,
Se inda trabalho é como os presos no degredo,
Com planos de vingança e ideias insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela literatura,
E até desprezo e esqueço os meus amados versos!

(Cesário Verde)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Isto

Foto de Ufuk Ozkan

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa

Foto de Tea Cisic

Não sei se vá, se fique. Esta frase, usada por uma pessoa do jet set português tornou-se quase imagem da sua marca pessoal. Aliás, quem sabe de quem eu estou a falar, sabe que indeciso(a) é mesmo o que ele(a) é.
Muitas vezes sabemos exactamente aquilo que queremos. Mas, por força de circunstâncias várias, achamos que, o que queremos está errado e tentamos convencer-nos de que queremos outra coisa. Lembro-me, por exemplo, quando foi preciso escolher o curso universitário que ia tirar de ter estado indecisa. Contabilidade ou economia? A decisão não foi fácil. Eu sabia o que queria (contabilidade) mas o meu pai achava que eu devia tirar economia porque tinha mais futuro. Acabei por tirar contabilidade. E não me arrependi. Segui o coração em vez da razão.
Bem sei que o coração tem razões que a própria razão desconhece. E muitas vezes as razões da razão devem ser ouvidas. E é desta dúvida, qual das razões ouvir, que nasce a indecisão.
Eu? Bem, normalmente demoro a decidir o que quero. Mas quando decido, assumo e não volto atrás. Custa-me mais estar indecisa que assumir a decisão tomada. E até hoje ainda não me arrependi de nada que tenha feito. E faria tudo de novo. Porque foram essas decisões que tomei que fizeram com que eu seja o que sou hoje.

Nota
* O título desta crónica é da autoria de Adriana Falcão. Ainda o desafio da Amora.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Solidão é uma ilha com saudade de barcos

Foto de Andris Eglītis

Solidão. Ai está um sentimento que se pode contradizer a ele próprio. Podemos sentir-nos sós no meio de uma multidão, ou acompanhados estando sozinhos. Depende apenas de nós, da nossa forma de ser e de estar… mas também da forma como lidamos com as diversas situações. Depende, por isso, muito mais de nós do que de quem nos rodeia.
Sinto-me só. Uma queixa ouvida vezes sem conta. Ao que eu respondo – que fizeste para te sentires mais acompanhado? A tua ilha terá espaço para os barcos atracarem? Ou será que te afastaste, ao longo da vida, de tudo e todos e agora, que queres companhia, ninguém te quer acompanhar? Esforças-te para estar com os outros, ou esperas apenas que sejam os outros a quer estar contigo, sem que lhes dês nada em troca?
Eu? Eu gosto de estar acompanhada. Sempre. Com a família ou com os amigos. Sou uma ilha com muitos portos, com barcos sempre a chegar e a partir. Não os obrigo a ficar, nem a partir. Ficam enquanto querem. Partem quando chega a hora de partirem, na certeza, porém, que podem voltar sempre que queiram.
Gosto também dos meus momentos de solidão. De não ter ninguém por perto. Só eu e os meus botões. Sem pensar em nada de especial, apenas e só no bom que é estar só.
Claro que muitas vezes a solidão pode ser provocada por circunstâncias menos boas. Basta ver a solidão a que os velhotes são obrigados por familiares sem escrúpulos que os deixam abandonados num qualquer lar, muitas vezes sem condições. Ou os doentes abandonados pelas famílias nos hospitais. Mas sabem, muitas vezes, esses mesmos doentes ou esses velhotes, tomaram atitudes que levaram a que as famílias não queiram saber deles. Mas isso daria outra crónica…

Notas
* O título desta crónica é da autoria de Adriana Falcão. Estou a tentar responder a um desafio da Amora, que me deu algumas frases desta autora para eu analisar. Esta é a primeira.
* Para que não haja dúvidas ou más interpretações, creiam que uso o termo “velhotes” com o máximo carinho. É assim que trato a minha avó, a minha mãe, o meu pai e os meus tios. Trato-os por velhotes com todo o carinho que eles merecem.

domingo, 19 de outubro de 2008

Voz numa pedra

Foto de Jukka Tuohino

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa
nenhuma
nada está escrito afinal.

Mário Cesariny

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Afrodite

Foto de Eric Larson

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divagadores,
ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.
Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão
provocante de pudor, de volúpia, de
reserva, de abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?
Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.
Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...
(Irene Lisboa)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Amizade

Foto de Antanas Strazdas

Nem os vendavais
afrontam os canaviais
nem as pragas
derrubam as vontades
nem todas contrariedades
(deste insano mundo)
destroem o nosso caminho.

E assim juntos conseguimos
ver a alegria das luas
sentir a força do sol
como salutares inocentes…

E na simplicidade do estar
em que nada queremos pedir
basta-nos dar,
um gesto sincero
num sorriso oportuno
sem pensar
na malícia de um outro olhar…

Como crianças
desfrutámos esta harmonia
da nossa vida exposta
sem rodeios
ou artifícios…

Sabes porquê?
porque sabemos o verdadeiro sentido
extraído, da palavra, com que brincamos
porque sentimos quem somos
e sem qualquer mácula
brindamos em alegoria
ao nosso estado fortificado…
Sabes?
Afinal tudo é tão simples
basta-nos, apenas, sermos amigos…

Paulo Afonso Ramos

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Vida Submersa


Em passo cadente silencioso, pela berma do caminho, caminhavam os dois, o pai com os olhos postos no chão, como que tentando encontrar algo ia observando a terra escura, com pequenas lascas de xisto aqui e ali tentando não os pisar que eram como lâminas nos pés descalços e doridos de mais uma jorna de trabalho. Lembrava-se de ter feito aquele mesmo caminho com o pai com a idade do filho que levava pela mão falar com o pai do Luisinho, agora Sr. Luís Almeida para pedir o mesmo que ele ia agora pedir. O Artur, seu filho não podia mais ir á escola, estava em idade de trabalhar que a Maria José estava já prenha de novo e era já o terceiro a caminho – como caralho é que ela se foi esquecer das contas? - Cogitava com os botões. – Òh home, foi Deus que quis, que queres que faça? – Respondera-lhe a Maria José. Raios parta o Sôr Abade que lhes mete aquelas ideias na cabeça, que é pecado isto, é pecado aquilo… - Estugou o passo e disse ao rapaz – anda lá moço, não tarda nada é de noite e ainda temos que dar de comer á bicharada na volta -. O Artur apressou o passo na cadência imposta pelo pai, olhos postos no horizonte cujas ondas de calor enovelavam e o levavam a pensar que quando fosse grande iria ter um carro quando fosse preciso ir a casa do patrão, ou melhor nem ia precisar de ir a casa do patrão porque não ia precisar de trabalhar para ele como todos os da aldeia. Ia ter dinheiro para o carro, para os dentes do pai, para tratar aquela doença que a mãe anda a esconder do pai – dizes ao teu pai levas uma estalada que te parto os dentes – dissera-lhe a Maria José enquanto escarrava no lenço uma viscose de cor vermelha e o metia apressadamente na manga da camisa, a tuberculose é maleita do diabo, dizia-se. O Sôr Abade do alto do seu púlpito dizia que era uma doença enviada por deus para castigar aqueles que pecavam e cometiam o pecado da carne em desrespeito pelas indicações que o Santo Padre dava. E a Maria José não percebia, nunca tinha deixado o seu António usar aquelas modernices que se vendem nas farmácias da cidade, fizera sempre o que o Sôr Abade mandava e como é que Deus lhe mandara aquilo? O Artur corria agora atrás de um esquilo indiferente ás lâminas de xisto que lhe feriam os pés – Tu vais cair rapaz, aleijas-te e o Sr. Luís não te dá emprego, caralho… - Disse-lhe o pai. A casa apareceu de repente ao fim da curva do caminho, contornaram o alvo muro até encontrarem o portão onde desembocava a estrada de paralelo que vinha do centro da aldeia sempre desenhada por carvalhos frondosos que o Avô do Sr. Almeida já mandara plantar há quase 90 anos, para o proteger da canícula do verão nas suas idas e vindas de charrete. Mas agora haviam os automóveis e o do Sr. Almeida lá estava do outro lado do portão com o motorista a passar-lhe um pano. – Que queres daqui Tónio? Perguntou-lhe o motorista garboso no seu uniforme.– Vinha para falar com o Sr. Luís Almeida por causa aqui do moço, sabe como é, já ‘tá em idade…- Òh Idalina…vê se o Senhor pode atender aqui o Tónio da Zefa. Berrou o motorista para uma sopeira que passava apressadamente para o interior da casa com um cesto de roupa acabado de apanhar do varal.O Senhor assomou á entrada da casa, barriga proeminente, com as mãos nos suspensórios, um palito no canto da boca, um bigode farfalhudo com fios de bacalhau pendurados, lábios semi cerrados para dar a demonstrar que não gostava que lhe interrompessem a merenda, e logo agora que a punheta de bacalhau lhe estava a saber tão bem.– Que queres Tóino? O António tirou apressadamente o chapéu, olhou de soslaio para o Artur e deu-lhe um tabefe no cachaço que se apressou a fazer o mesmo- Era pa falar aqui do meu moço, Sr. Luís, o rapaz fez a terceira classe, e já vai sendo tempo de começar a trabalhar que eu cá também não aprendi a escrever e cá vou levando a vida. Ele é inteligente o moço, se calhar até nos escritórios da fábrica grande lhe podia fazer jeito.- Òh Tóino, de inteligentes aqui na terra já basto eu, ele que idade tem? - Desculpe Sr. Luís, não quis ofender o senhor, mas não se podia arranjar alguma coisita para ele? É que a minha Zefa, já, já t’aí a parir e dava jeito mais algum lá em casa. Só pa parteira o Sr Luís sabe como é…- Vós fodeis como coelhos, não tendes juízo é o que é – vociferou o Senhor – Chega cá moço, mete aqui as mãos entre as grades para te ver. O Artur olhou para o pai que lhe fez um sinal de assentimento, chegou-se às grades do portão, e mostrou as mãos ao Senhor.- Amanhã, às seis da manhã levas o moço ao chefe de turno da fábrica e dizes que vais de meu mando, mas olha lá, o moço vai ter que fazer os dois turnos qu’é muito novo e não dá rendimento…Respondeu e virou costas ignorando os “obrigados” do António e os “Deus lhe pague”.O António fez o caminho de volta, lentamente, cara tisnada pelos fornos da fábrica de tijolos, pegou na mão de Artur, pequenina e franzina no meio da sua grossa e calejada, lembrou-se de quando na idade dele fazia o trabalho de cinzeiro na recolha do carvão não ardia e era reutilizado para os fornos… O calor sufocante, o carvão incandescente que teimava em se colar ás maos, a chibata do chefe de turno…- Puta de vida.


(José Alberto Valente)

domingo, 12 de outubro de 2008

Iremos juntos sozinhos pela areia

Foto de Luís Faria

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como o linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia de Mello Breyner Andersen

sábado, 11 de outubro de 2008

Cântico negro

Foto de Franco Calegari

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Poeta castrado não!

Foto de Alexandru Axon

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!
(Ary dos Santos)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

You 0.2

Foto de Andrei Luca

Sinto na alma e sinto na pele a falta que me fazes. Na alma, há como uma incompletude que persiste, uma compreensão das coisas através do teu olhar invisível por agora.
Na alma, há um vazio que vai crescendo sempre que não posso partilhar contigo um sorriso, uma lágrima, um beijo. Na pele, há como uma agrura que vai aumentando sem a macieza das tuas mãos, um dessensibilizar sem o contacto com a tua pele. Na pele, há uma saudade de um entrelaçar, de um abraçar, só possível contigo. E assim vou vivendo os dias, vazia de ti, ansiando pela tua vinda e, ao mesmo tempo, receando que chegues para apenas voltar a partir...

Numa das minhas deambulações pelos blogs, encontrei esta pérola da escrita cuja autora é a Sara Grenho.
Visitem o blog que ela mantêm em http://sara-grenho.blogspot.com/ e irão encontrar mais motivos para a ler (mesmo que ela diga que não escreve por ai além)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Hoje fiz amor contigo

Foto de Nikolay Chirew

Hoje eu fiz amor contigo
nas palavras,
no olhar,
na nudez do teu braço,
num hipotético abraço,
numa frase sem sentido.

Hoje eu fiz amor contigo
num sorriso,
num suspiro,
num aperto de mão,
no bater do coração,
num sussurro ao teu ouvido.

Hoje eu fiz amor contigo
num carinho,
no teu riso,
na tua aflição,
mesmo dizendo que não,
tu fizeste amor comigo.

Improvável Poeta

domingo, 5 de outubro de 2008

Arte poética com melancolia

Foto de Jef Van den Houte

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro palavras de dentro do que penso e do que faço, como se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem da terra, nem trazem consigo o peso da matéria; quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem o mesmo sangue com que se faz viver as emoções, e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas, estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo, de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das palavras que te descrevem, hesita numa das entradas do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens inúteis que me separaram de ti.

Nuno Júdice

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Alma Gémea

Foto de Andrew Quag

A noite ruiu nos meus olhos e a escuridão entrou-me no coração.
Tantos seres procuram uma vida inteira a alma gémea, aquela que nos completa, nos transforma, que nos adivinha os gestos e os desejos mais íntimos. Há quem nunca a encontre, ou se canse de procurar. E há seres como tu que, a troco de uma integridade absoluta que existe apenas aos teus olhos, são cegos. Têm na palma da mão o que uns buscam sem cessar e mesmo assim sacodem e repudiam o que lhes poderia dar a felicidade plena.
Sempre estive aqui e nunca me viste. Sempre te amei e nunca quiseste conhecer o verdadeiro amor.
Beija-me! Beija-me docemente ou dá-me um beijo brutal… Vais sentir quem eu sou. Beija-me!
A noite ruiu nos meus olhos e perdi os sonhos. Perdi-os? Não… Afinal nunca os tive. Foram meras ilusões. Falsas, como é falso tudo o que sonhas que existe no teu mundo.
Quando virás? Não sei… Nem sei se estarei ainda aqui… Talvez tenhas ainda tanto para aprender que nesta vida será tarde. Tarde demais para nós dois.
A escuridão entrou-me no coração e já não sei se será capaz de acender a luz da alma.

(Vera Silva)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Aprendi

Foto de Mathew Cook

É curioso. Passamos a vida a dizer que as crianças devem aprender com os adultos, mas não nos lembramos que também nós deveríamos aprender com elas.
Aconteceu-me, pelo menos por duas vezes, aprender com os meus filhos duas lições que, se calhar, eu, como mãe, adulta e que se considera responsável, já devia saber.
Primeiro foi com a minha filha. Um dia que o irmão estava mais irrequieto e que a magoou, ela zangou-se com ele. E ele, claro, pediu-lhe desculpa. Ela, do alto dos seus 5 anos, disse-lhe “as desculpas não se pedem, evitam-se”. E eu, que ia intervir, calei-me e, enquanto esperava pela reacção do visado, pensei com os meus botões – ora ai está. Porque não pensamos nós, adultos, nisto? Quantas vezes fazemos coisas que sabemos que estão erradas e depois tentamos, com um pedido de desculpas, que tudo fique sanado. Grande erro. Primeiro porque, lá está, as desculpas evitam-se. E depois porque, mesmo depois de pedidas as desculpas, as atitudes ficam. E já magoaram alguém. Que poderá perdoar mas dificilmente esquecerá. Sempre tentei pautar a minha vida por este princípio. Não fazer aos outros o que não gostava que me fizessem a mim. Agora, com a minha filha, aprendi a acrescentar que devo evitar ter de pedir desculpa.
O meu filho deu-me uma lição. Daquelas que eu tive de engolir em seco. É simples. Os meus filhos raramente jogam com a Playstation. Preferem brincar juntos. Mas apeteceu-lhe jogar. Só que a consola está, habitualmente, desligada. Só o pai a sabe ligar. Como o pai estava a dormir ele pediu-me que fosse eu a ligar. Eu respondi – não sei fazer. Tens de esperar pelo pai. E o meu filho, cheio de razão, disse-me: mãe, se não tentares não sabes. Fiquei sem palavras, sem reacção. Aliás, reagi sim, peguei nos cabos e fui tentar. Ora, porque não é sempre assim? Porque não tentamos sempre? Mais uma lição aprendida e que passará a fazer parte dos meus princípios. Creio que nunca mais terei coragem de dizer que não sei, sem tentar primeiro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A um poeta

Foto de Sharon Jobe

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gémea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Olavo Bilac

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ensaio sobre um ensaio

Foto de Todd Laffler
“O ensaio cresce no quintal...
Que irei colher?
Talvez uma mão cheia de palavras daninhas…
Lamentos, perdas, sombras, amuos
Enfim, tudo germina Nesta vida sem estufa…”

Assim comecei!
Primeiro, delineei traços de gente… Suei a compor rostos fragmentados pelo tempo devidamente ungido por mãos que fraquejaram na escolha do melhor enquadramento cénico. Todos presentes, até Deus! Sem falas, sem maquilhagem… apenas sorvíamos pedaços de inquietude. E eis que irrompe a famigerada ordem de acção… Nem pano, nem palco, nem cadeiras… Apenas terra e um ponto.
Assim começou!
Era o fim de um dia radioso, mas seu fim já nem me lembro. Desfoco momentos, subtraio sorrisos, baralho saudades… Tentarei repetir-me na adjectivação sumária, pois se semeio vontades alheias talvez ache a mais certa. E não é fantástico? Bater palmas, na antecâmara dos meus medos, será um acto devidamente fundamentado. Todos estarão presentes, até Deus!
Assim começará o ensaio….

Cristovão Siano (também conhecido por Freudnaomorreu)