quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de dezembro de 2009

Agradecimentos

(Ivo, Magda, Paulo)

Começo esta minha intervenção por vos agradecer a todos por estarem aqui presentes.
Este é um dia especial para mim, dia que realizo um sonho que nunca tive. Passo a explicar…
Nunca foi minha pretensão editar um livro. Na verdade, até há cerca de dois anos, nem sequer pensava em escrever ou publicar textos meus, fosse em blogues ou onde fosse. Acompanhava alguns blogues, lia aqui e ali textos que me interessavam e lá deixava a minha opinião, quando me apetecia.
Estão aqui hoje, neste auditório, algumas das pessoas que me levaram a dar os primeiros passos nesse sentido. A Vera Sousa Silva foi talvez das primeiras pessoas a fazê-lo, quando me disse, numa livraria aqui bem perto, que gostava de ler os comentários que eu deixava nos textos publicados no site luso-poemas e que tentava lê-los a todos, tendo terminado a perguntar-me porque é que não tentava escrever um texto independente. Lembro-me, na altura, de pensar que esta conversa não fazia sentido algum, porque, ao contrário da Vera, eu não escrevia.
Hoje, dois anos mais tarde, a Vera continua a ser quem mais força faz para que eu continue a escrever, apoiando-me incondicionalmente e corrigindo os meus textos. Vera, soa a muito pouco dizer-te obrigado, quer pela amizade que nos une, quer por tudo quanto fazes.
Aqui ao meu lado, está sentado o Paulo Afonso Ramos. Antes de ser editor, é, e será sempre, um amigo. Um amigo daqueles com quem se conta desde a primeira hora. Também ele é um dos responsáveis pelo iniciar, do meu percurso literário (se é que se pode chamar assim), cabendo-lhe a árdua tarefa de, em conjunto com a Vera, fazer a correcção dos meus textos e de me incentivar a escrever. Obrigado Paulo porque, sem ti, não estaria sentada nesta mesa como autora.
Para poder estar aqui hoje, neste lugar, há muita gente a quem devia agradecer. Pessoas que acreditaram, antes de mim, que ainda tenho dúvidas, nas minhas capacidades para a escrita e que me diziam que, um dia, ainda haveria de editar um livro. É quase impossível nomear toda a gente, por isso que me perdoem aqueles que não mencionar.
Quero ainda agradecer ao António e à Manuela. Primeiro porque, num domingo qualquer, há onze anos atrás, estiveram uma tarde na minha casa a instalar o modem de acesso à Internet no meu computador, bem como alguns programitas. Dei, nesse dia, os meus primeiros passos nesse mundo maravilhoso que serve de base ao meu livro. Foram também eles que me deram o apoio imprescindível para que este livro saísse das minhas mãos com o que eu entendia ser fundamental. Ajudaram-me na minha pesquisa e corrigiram-me sempre que foi oportuno.
A internet é um mundo maravilhoso do qual, hoje em dia, quase todos usufruem. Em 1998 ainda não era assim. Foi nesse ano que, através da internet e dum programa chamado ICQ, conheci o autor da foto da capa, Miguel Pais. Obrigado marido pela tua paciência e por teres conseguido fazer a capa perfeita. Só a foto da capa, para mim, já vale o livro todo. O Miguel é, comigo, co-autor de duas crianças lindas, a Margarida e o Martim, que estão aqui hoje e a quem mando um beijo especial.
O mundo gigantesco da Internet não pára de surpreender. Umas vezes de forma negativa (e lembro-me aqui, por exemplo, de que foi por e-mail que soube da morte dum amigo, real e virtual, que tinha conhecido através do ICQ, o Paulo Pires, que, acredito, gostaria de estar aqui hoje) e outras vezes de forma positiva. Isto para vos dizer que foi também através da internet, e por um feliz acaso, que conheci o Ivo, que apresentou, de forma magistral, o meu livro. Logo que o conheci, pedi-lhe que fizesse esta apresentação porque, tal como o João Sortudo, também eu acredito que, "quando um coelho está numa encruzilhada deve procurar a opinião de outros coelhos com mais experiência e sucesso no assunto em causa”. Foi o que fiz. Deixem-me aqui abrir um parêntesis para vos explicar que o João Sortudo é um coelho e que é a personagem principal do último livro do Ivo – Um Coelho Cheio de Sorte – cuja leitura recomendo vivamente. Obrigado Ivo.
Ao Pedro Batista, também conhecido por Xavier Zarco, amigo e editor, apesar de ausente, tenho também de lhe agradecer por ter acreditado neste projecto e por não o ter deixado cair no esquecimento. Obrigado Pedro porque, sem ti, não estaria aqui sentada nesta mesa, como autora. Implicitamente, e ao agradecer aos dois editores, o Paulo e o Pedro, estou também a agradecer à Temas Originais. Uma editora nova mas que se tem estado a afirmar no panorama editorial português. Passo a passo, dando oportunidade aos autores de realizarem o seu sonho, vai espalhando, por livrarias em quase todo o país, o resultado desses sonhos. São livros excelentes, a maioria em poesia, mas que também conta, no seu catálogo, com outras vertentes literárias.
Toda a minha família, avós, pais, tios, irmãs, soube sempre da minha paixão pela leitura, que nasceu ainda muito nova, quando frequentava a primária. Tenho de lhes agradecer terem incentivado essa minha paixão, porque, se hoje escrevo é porque também leio. Já agora, e porque falo na família, agradeço também às minhas irmãs, Mónica e Marta, e à minha tia Lucília pelo cocktail de hoje. Ainda na vertente familiar, faço aqui uma menção especial a duas pessoas que já não se encontram entre nós. O meu cunhado André que ainda soube que este livro ia nascer mas que, infelizmente, faleceu antes de o poder ver, e o meu avô Manuel, falecido há sete anos, e cuja história de amor, com a minha avó, serviu de mote ao primeiro texto que escrevi – Momento Oportuno. Sei que ambos ficariam satisfeitos de aqui estarem hoje. Sei que eu gostaria que aqui estivessem.
Este livro, como facilmente percebem pelo título, é sobre um pouco de mim e de nós, os que desfrutamos desta mais-valia conhecida como Internet. “Vida na Internet” nasceu dum desafio. Porque não passar a escrito as minhas experiências enquanto internauta e visitante assídua de blogues e sites. Aceitei fazê-lo mas quis que, além da minha visão enquanto utilizadora, o livro tivesse informações que permitissem, a quem se sente quase infoexcluido, perceber do que se fala, quando se recorre a termos como posts, sites, blogues, etc.
Tentei também abordar temas polémicos, quer na Internet, quer no chamado mundo real, como o plágio e o sexo, assim como temas mais consensuais, como os blogues e o mundo que os rodeia.
O meu objectivo foi tentar juntar as informações úteis que já referi, com algumas histórias vividas por mim e por amigos meus, enquanto internautas, na esperança de conseguir cativar o leitor para que leia esta “Vida na Internet” com entusiasmo e que encare a utilização da internet como um factor positivo.
Sinceramente, diverti-me enquanto o escrevia. Espero que também se divirtam a ler.

Este foi o meu discurso de ontem, dia em que lancei o meu primeiro livro. Aproveito a oportunidade, aqui e agora, de agradecer também a alguns luso-poetas.
Ao José Torres, porque sempre acreditou que eu sabia escrever, mesmo antes de eu o fazer. Insistiu tantas vezes para que o fizesse de uma forma criativa e não para comentar os textos dos outros e transcrever lendas antigas, que acabei por o fazer.
À Fly, ao António MR Martins e à Luísa Martins, porque sempre acreditaram que eu iria editar um livro, antes mesmo de eu própria acreditar.
À Rosa Maria Anselmo, Sandra Fonseca e Amora por me incentivarem a escrever.
E a todos os que me lêem, obrigado por o fazerem.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Vida na Internet

Foto de Miguel Pais


(...) Há vida na internet. Muito mais que a virtualidade do que se lá passa, há mesmo vida. Tudo foi concebido e pensado para nós, utilizadores, mas com imenso trabalho e dedicação, e, se hoje nos basta clicar num simples botãozinho para termos acesso ao mundo, falar com amigos reais ou virtuais, foi porque alguém passou de um sonho a uma realidade. Muitos dos que têm hoje blogues e partilham as suas artes em sites, bem o podem agradecer a Homens que idealizaram este mundo virtual. (...)
Vera Sousa Silva
(...) Encontramos, neste livro, diferentes realidades, abordadas pela autora, quer pela sua experiência pessoal, quer por experiências de terceiros, histórias diferenciadas e outras formas que o ser humano conquista para crescimento do seu ego, tentando passar a mensagem do risco deste mundo, correndo, ela própria, o risco de passar uma mensagem que pudesse ser lida de forma errada, ao escrever sobre um mundo gigantesco, como é o da Internet. (...)
Paulo Afonso Ramos

“Vida na Internet” é o primeiro livro autónomo de Magda Pais, que compila as experiências que a autora viveu, ou que lhe foram relatadas por terceiros, enquanto internauta e frequentadora assídua de blogues e sites de literatura, dando-nos a sua visão pessoal das realidades sociais associadas. Encontramos ainda, neste livro, algumas explicações técnicas, dadas de forma acessível, permitindo, ao leitor, esclarecer dúvidas ou levantar questões sobre as quais nunca terá pensado.
Sinopse

A autora, Magda Luna Pais/Pedra Filosofal, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “Vida na Internet” a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo dia 12 de Dezembro, pelas 19h. Obra e autora serão apresentados pelo Dr Ivo Dias de Sousa. A sessão contará ainda com momentos musicais por Sandra Rodrigues.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Deficiências

Foto de Rarindra Prakarsa


Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
Paralítico é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
Diabético é quem não consegue ser doce.
Anão é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, porque
A amizade é um amor que nunca morre.
Mário Quintana

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Resquícios de uma paixão

Foto de Verisan Julian

Reparei em ti...
pela penumbra do toldo
do café da Praça Grande.
Desde logo
equacionei algo...
muito diferente
do anteriormente
perspectivado.
Idealizei-te em sonhos
de nuvens pinceladas
entre flocos de luz.
Meus olhares
se situaram
numa insistência
sem sentido...
Facto por ti
reprovado,
pelo teu afastamento...
sem mácula!
Mas eis que sorris
e as estrelas brilham
em cores de suave primavera.
Passaste lesta
pelos meandros
da minha vida.
Teu rasto
se desvaneceu,
com indiferença.
Foste passagem,
de todo,
despercebida!...
Mas ficou a lembrança
guardada no meu peito
que te reclama na saudade.


Vera Sousa Silva & António MR Martins



Os autores, António MR Martins e Vera Sousa Silva, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento dos livros “Quase do Feminino” e “Traços do Destino” a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, Lisboa, no próximo dia 28 de Novembro, pelas 16:00. Obras e autores serão apresentados por Catarina Boavida e Carlos Teixeira Luís, respectivamente.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

(in)justiça


Em Julho de 2008 Filipe interpôs, no Tribunal de Família e Menores, uma acção de alteração de regulamentação de poder paternal por achar que a sua filha, Elsa de 12 anos, a residir com a mãe, se encontrava negligenciada e em risco.
Estamos em Novembro de 2009. Passaram-se 16 meses e esta acção que, por envolver uma menor, deveria já ter tido o seu desfecho, pouco ou nada avançou desde que foi entregue.
Infelizmente basta olhar para as notícias dos jornais ou falar com alguns advogados para sabermos que este caso não é único. Quase todas as acções judiciais, envolvam menores ou não, no nosso país, demoram anos nos tribunais, avançando a um passo demasiado lento.
Como é do conhecimento geral, o tempo, para as crianças, é diferente do nosso. Razão pela qual acredito, mas corrijam-me se estiver enganada, que as acções judiciais que envolvem menores que possam estar em risco, devem ser analisadas e julgadas com a maior brevidade, de modo a se evitar que continuem em situações que ponham em causa a sua segurança, saúde e bem-estar. Só agindo de forma rápida é que se pode contribuir para que o comportamento do menor envolvido seja moldado de forma a se tornar um adulto consciente e responsável. Infelizmente, na maioria dos casos, quem pode, de alguma forma, ajudar a resolver os problemas dos menores – os tribunais - é inoperante e burocrático quando deveria ser rápido e eficaz.
Num estado de Direito como Portugal, que subscreveu a convenção sobre os direitos da criança e que se considera democrático e desenvolvido, é de lamentar que os tribunais funcionem desta forma, não ajudando os cidadãos que a eles recorrem para resolverem os problemas que lhes surgem e para as quais não encontram solução, principalmente quando estão em causa crianças e jovens que serão os adultos de amanhã.
Ouve-se falar, várias vezes, que, em Portugal se respeita o interesse superior das crianças, tal como determina a Convenção mencionada acima. Ora, eu então pergunto, onde é que o interesse superior das crianças está a ser tido em conta se os processos judiciais que as envolvem demoram anos a ser julgados? Onde é que a família está a ter a assistência necessária para promover o bem-estar da criança se os Tribunais Portugueses são inoperantes e burocráticos, não se pronunciando, em tempo útil, sobre as acções que lhe são entregues, tendo em vista zelar pelo bem-estar de menores que se acredita estarem a ser negligenciados?


* Os nomes são falsos, a situação é, infelizmente, real.


Notas técnicas:


De acordo com lei portuguesa, uma criança está em risco quando se encontra numa das seguintes situações: abandonada ou vive entregue a si própria; sofre maus-tratos físicos ou psíquicos ou é vítima de abusos sexuais; não recebe os cuidados ou a afeição adequados à sua idade e situação pessoal; é obrigada a actividades ou trabalhos excessivos ou inadequados à sua idade, dignidade e situação pessoal ou prejudiciais à sua formação ou desenvolvimento; está sujeita, de forma directa ou indirecta, a comportamentos que afectem gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio emocional ou assume comportamentos ou se entrega a actividades ou consumos que afectem gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento sem que os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de facto se lhes oponha de modo adequado a remover essa situação.
A convenção sobre os direitos da criança (assinada por Portugal a 26 de Janeiro de 1990), determina que crianças são todos os seres humanos com idade inferior a 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo.
Considera ainda esta convenção que a família, elemento natural e fundamental da sociedade e meio natural para o crescimento e bem-estar de todos os seus membros, e em particular das crianças, deve receber a protecção e a assistência necessárias para desempenhar plenamente o seu papel na comunidade, devendo todas as decisões relativas a crianças, adoptadas por instituições públicas ou privadas de protecção social, por tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, ter, primacialmente, em conta o interesse superior da criança.
Diz ainda a Declaração dos Direitos da Criança de 1959, que Portugal, enquanto membro da ONU, também subscreveu, que todas as crianças terão direito a protecção especial e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Um quadro paralelo

Foto de Karolos Trivizas




Um caminho de terra batida, ente árvores gigantes, sem fim. A brisa, que empurrava o meu corpo, fazendo-me caminhar na direcção ao desconhecido. As árvores, que me cumprimentavam ao acenarem levemente. E eu, perdidamente esquecido do tempo, acumulava os passos por contar na busca do mistério desse caminho.

O sol, meu aliado, dava-me algum alento, recordo, que através da luz iluminava o meu trilho.

De nada mais recordo. Não sei como tudo começou nem de onde vim. Não sei do propósito com que iniciei, nem tão-pouco como aqui cheguei. Um caminho, é tudo o que tenho, de terra batida entre árvores gigantes, e por instantes, deixo-me cair no vazio da memória. Nada acontece. Nada. O caminho e as árvores permanecem imutáveis. E eu, um louco extravagante invento histórias para atrair a vida.


Paulo Afonso Ramos

domingo, 1 de novembro de 2009

As Bruxas...


Sem ser supersticioso,
nem ter medo de "mésinhas"...
Talvez seja receoso!!!
De quê?...Vê lá se adivinhas?

Em "bruxas" acreditar?!!!
Se existem, eu não sei bem...
Mas prefiro evitar
os seus olhares de desdém...

É vê-las à meia-noite,
numa noite de luar...
Não há ninguém que se afoite,
para as bruxas enfrentar...

Em caldeirões, na fogueira,
fervilham as "maldições"...,
numa sopa "mixordeira",
de "unhas", "sapos" e "tritões"...

E depois de muitos gritos,
blasfemas, discussões...,
nos caldeirões vão ser fritos
"entranhas" e "corações"...

E antes do Sol raiar,
com seus chapéus de "cartuchas",
nas vassouras vão voar,
em "magotes", essas BRUXAS...

António Boavida Pinheiro

sábado, 24 de outubro de 2009

A força das palavras

Foto de Floriana Barbu

Vens do tempo e estarás no tempo e a tua palavra estará no vento e será espalhada pela terra. A tua palavra será o fogo que transforma todas as coisas. A tua palavra estará na água e será espelho da língua. A tua palavra terá olhos e verá, terá ouvidos e ouvirá, terá tacto para mentir com a verdade e dirá verdades que parecerão mentiras. E com a tua palavra poderás regressar à quietude, ao princípio onde nada é, onde nada está, onde tudo o que foi criado regressa ao silêncio, mas a tua palavra despertá-lo-á e terás de nomear os deuses e terás de dar vozes às árvores e farás com que a natureza tenha língua e falará por ti o que é invisível e torna-se-á visível na tua palavra. E a tua língua será palavra de luz e a tua palavra, pincel de flores, palavra de cores que, com a tua voz, pintará novos códices


Laura Esquível, in A Malinche

domingo, 18 de outubro de 2009

Retrato

Foto de Aguiar Thierry

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Gaivota

Foto de Carlo Magnatti

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

domingo, 4 de outubro de 2009

A morte

Foto de Paul David Athey

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

Vinicius de Moraes

domingo, 27 de setembro de 2009

Ser feliz

Foto de Bryce Johnson

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o alguém da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

Mário Quintana

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Construir o sonho

Este é um sonho diferente...
Juntando apoios e esforços
Vontades e persistência
Tijolo a tijolo
Sustenta-se a esperança
De alicerçar o futuro
De cidadãos especiais
Com materiais de amor
Segurança e estabilidade
Num abraço colectivo
Em troca de um sorriso
O sonho que é de todos
Será uma realidade!


A autora, Fernanda Esteves, e a Temas Originais têm o prazer de oconvidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Canteiros de Esperança”, a ter lugar na Sociedade Filarmónica Humanitária, sitana Av. Doutor Godinho de Matos, em Palmela, no próximo dia 26 deSetembro, pelas 16:00.
Obra e autora serão apresentadas pela poetisa Alexandrina Pereira.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O céu tem mais uma estrela



Nestes dias cinzentos e chuvosos, torna-se mais difícil pensar na morte. É que a vida sem sol e o dia sem céu fazem mais cinzenta a tristeza com que o mundo encara a morte.
Pergunto-me, muitas vezes, como é possível viver, olhando a morte como o fim? Que sentido teria a vida, se tudo acabasse na morte?
É que, se a morte fosse o fim, a vida seria, toda ela, uma condenação, um longo e insuportável caminhar para o abismo do nada.
Se assim fosse, restava-me fazer como tantos fazem, distraindo-se de si próprios, acelerando a vida numa vertigem que não os deixa pensar no passado ou no futuro, mas tão só no louco instante do momento.

(anónimo)

Este foi o texto escolhido para que eu lesse, pela morte de um grande amigo, que me acompanhava há mais de dez anos e com quem eu contava em todas as ocasiões. Ele sabia bem que também podia contar comigo.
André, prometi-te o que os dois sabemos. Sempre nos entendemos, sei que sabes que o farei, a todo o custo.
Vais fazer falta. A todos os que tiveram o prazer de conviver contigo, a todos a quem dirigiste o sorriso lindo que tinhas. É assim, a sorrir, que te vamos lembrar. E a verdade é que, enquanto nos lembrarmos de ti estarás vivo nos nossos corações.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os versos que te fiz

Foto de Janusz Taras



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer,

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Se soubesses que só irias viver mais um dia, o que farias?

Foto de Matusciac Alex

A propósito dum recente acontecimento familiar, comecei a pensar no que faria se soubesse exactamente quando iria falecer. Não que tenha medo da morte. Ou que sofra por saber que, um dia, será a minha vez. Como costumo dizer, quem morre de véspera é o peru de Natal e eu quero viver cada segundo da vida intensamente.
Se, por qualquer razão mística ou prática, eu soubesse que só iria viver mais um dia, acho que o iria aproveitar para várias coisas.
Começaria por telefonar a todos os amigos. Não para me despedir, mas para lhes dizer o quanto gostava deles e o quanto estava grata por os ter conhecido. Sinto-me bem comigo mesma e estou certa que, cada um deles, à sua maneira contribuiu para esse facto.
Depois iria ter com a família. Somos muitos, unidos, especiais no carinho que nos une em todos os momentos, mesmo quando estamos de candeias às avessas e prontos a discutir uns com os outros. Gostava que tantas outras famílias fossem assim, que se amassem até na discórdia. Por sermos diferentes, discordamos. Por nos amarmos, aceitamos que o somos. Mesmo quando não concordamos com as opções tomadas, respeitamo-las e aceitámo-las.
O resto do tempo estaria com os meus filhos. Tentaria explicar-lhes que não deveriam sofrer em demasia com a minha partida, que a deviam aceitar como inevitável e que, enquanto se lembrassem de mim, eu estaria viva nos seus corações e nas suas mentes. Pediria ainda que se mantivessem unidos e que se lembrassem sempre de se respeitarem um ao outro. Tentaria mostrar-lhes o quanto os amo e o quanto eles significam para mim. Relembraria também que deviam doar os meus órgãos, que se pudessem aproveitar, para outros doentes pudessem deles usufruir e, quem sabe, ajuda-los a sobreviver ou a ganhar qualidade de vida. O que restasse do corpo deveria ser cremado, e as cinzas deitadas na serra da Arrábida ou em Sesimbra, no mar.
Gostaria ainda de, num só dia, ter tempo para contactar todas pessoas para lhes pedir que me desculpassem de tudo o que tivesse feito, que, de alguma forma, os tivesse magoado e, se ainda fosse possível, pedia-lhes que se lembrassem só do melhor de mim.
E dentro das limitações de tempo, partiria com o sentido do dever cumprido e com pena do tempo que perdi nesciamente…
E tu? Se soubesses que só irias viver mais um dia, o que farias?

sábado, 29 de agosto de 2009

Desespero

Foto de Kenvin Pinardy


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

Ary dos Santos

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O pirata e o bombeiro

Foto de Gazzaroli Claudio

Ter um filho pirata, como o meu, é sinónimo de problemas, uns atrás dos outros. A mente dele anda bastante mais à frente que qualquer um dos adultos que o rodeia (e, ás vezes, acho que até à frente dele próprio). À mente, juntem-se umas mãos nervosas e prontas a mexer em tudo e temos um pequeno pirata pronto a meter-se (e a meter-nos a todos) em sarilhos.
Daria quase um livro todas as aventuras e desventuras que já aconteceram por ele ser assim. A primeira aventura digna de nota foi quando ele tinha 14 meses. A nossa amiga e vizinha da frente estava a falar comigo no patamar das escadas e ele resolveu passar ao lado dela e fechar a porta de casa dela, com ele – e as chaves – do lado de dentro: só com a intervenção da polícia e dos bombeiros é que se conseguiu abrir a porta para o tirar de lá.
Uma das últimas foi, sem dúvida, a que poderia ter tido consequências mais graves.
Conseguiu encontrar, perdidos lá por casa, uns fósforos daqueles usados normalmente para acender as lareiras e levou para o quarto. Passadas umas horas descobrimos que os lençóis da cama estavam queimados e que, dentro das gavetas de plástico, onde estão os seus desenhos, estavam vários fósforos usados.
Depois de passar o primeiro susto, resolvemos, eu e o pai, manter a calma e explicar-lhe quais os riscos das brincadeiras com o fogo. Como me pareceu insuficiente, falei com um amigo, sub-chefe dos bombeiros, e marcamos uma visita ao quartel.
Fomos os quatro, acompanhados do sub-chefe (que teve a paciência de esclarecer todas as dúvidas) e do Yuli, um cão treinado para a busca e salvamento. Pudemos ver os carros dos bombeiros, as ambulâncias e perceber exactamente para que servia cada um deles.
O meu pirata teve ainda a oportunidade de conhecer casos em que as crianças tinham feito o mesmo que ele e que não tinham tido a mesma sorte.
Mas, além da componente pedagógica que, só o tempo poderá dizer se resultou, ou não, esta visita teve, para mim, o condão de aumentar a minha admiração pelos bombeiros, principalmente pelos voluntários. Homens e mulheres que prescindem do seu tempo livre, do tempo que podiam dar às famílias para protegerem as matas e florestas, para ajudar quem está doente, socorrer outros em caso de acidentes… e, que, em troca, recebem, na maioria dos casos, a indiferença da população que os rodeia. Noutros casos (felizmente mais raros) chegam a ser mal tratados por quem tentaram socorrer.
Porque é uma entidade sem fins lucrativos, porque nos peditórios e sorteios a população não colabora, porque a Câmara, que tem a seu cargo a protecção civil, pouco os ajuda, tem de ser os próprios a acudir aos “fogos” financeiros dentro da corporação. Vêm-se, literalmente, gregos e troianos para fazer face a todas as despesas que estão inerentes à sua actividade mas nada disso lhes retira a vontade de estarem sempre alerta para ajudar a população.
Assim estivesse a população alerta para as necessidades dos bombeiros.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Reverência ao destino

Foto de Richard Eijkenbroek



Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e reflectir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem para fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente eléctrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas

Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exacta de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefónica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fracção de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A decisão de decidir

Foto de James Bogue


“Tomar decisões era, para mim, a parte dolorosa, a parte que me afligia, mas, assim que a decisão estava tomada, eu simplesmente a levava até ao fim – normalmente, sentindo alívio pelo facto da escolha ter sido feita”


Estava eu a deliciar-me na leitura do livro “Crepúsculo” da Stephenie Meyer, ali, num jardinzito mesmo ao lado do meu local de trabalho
(que tem destas coisas boas – um jardim ao pé, um café onde me guardam o almoço e uma hora inteira para poder ler por um bocado)
quando me deparei com a frase com que iniciei esta crónica. Se bem que o livro é sobre vampiros, e, ao que parece, o Edmund até lê pensamentos, não me parece que tenham lido o meu. Mas, o que é certo, é que é exactamente assim que eu penso (e, já agora, ajo).
Quando decido alguma coisa, seja lá sobre o que for, vou até ao fim. Antes, peso os prós e os contras, e não dou nenhum passo em qualquer sentido sem que a decisão esteja tomada.
Assim que decido e que assumo o que decidi para comigo, sinto-me, de facto, aliviada. E tento, na medida do possível, levá-la até ao fim. Claro que não estou a falar de coisas corriqueiras, como “que fazer para o jantar” ou “que livro vou ler a seguir”
(se bem que já sei que o livro que vou ler a seguir irá ser a continuação deste. Já do jantar logo vejo o que me apetece… ou até pode ser que esteja feito quando chegar a casa)
estou sim a falar de decisões importantes, que me possam afectar, positiva ou negativamente, e cujas consequências possam perdurar no espaço e no tempo. São essas que me levam a passar por um período doloroso, seguido do alívio pela escolha feita. Mesmo que essa escolha, por qualquer razão, seja contrária ao que eu pensava que seria a melhor escolha noutra altura qualquer. Até porque crescer e evoluir é também mudar de opinião e assumir essa mudança.
Duma forma franca e honesta, prefiro uma má escolha a uma indecisão. Parece que a Isabella também.


Nota – Isabella e Edmund são as personagens principais da saga “Luz & Escuridão” escrita por Stephenie Meyer. A história é contada na primeira pessoa, Isabella, a quem “pertence” a reflexão inicial.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Indigentes



Todos os dias, no caminho para o meu emprego, passo por uma das zonas de Lisboa onde vivem mais indigentes – pessoas a quem a vida não sorri e que se vêem obrigadas a viver na rua.
No Terreiro de Paço, mesmo por debaixo das arcadas, lá estão eles. Nas suas camas feitas de cartão, ou, nalguns casos, com sacos-cama ou cobertores, já roçados e gastos de tantas noites, por certo, mal dormidas.
Todas as manhãs, algumas pessoas fazem a distribuição do pequeno-almoço. Uma sandes e uma garrafa com leite ou chá. Para muitos deles está será a única refeição do dia. À hora que passo está a distribuição a meio. E se alguns se mantêm nas camas enquanto comem, outros levantam-se, tentam fazer a sua higiene pessoal com a água que recolheram em garrafas de plástico e arrumam os seus poucos pertences dentro de caixas, antes de se sentarem, com a dignidade que lhes resta, para comer.
Tentam, quase todos eles, apesar das condições adversas em que vivem, fazer uma vida dita (quase) normal. Há quem vá buscar os jornais gratuitos para poder ler e saber o que se passa no mundo, há quem jogue às cartas e até quem ouça música num qualquer leitor portátil – quem sabe se não será o único bem que tem da vida anterior.
Uma das pessoas que por lá está é uma senhora de idade que pouco anda. São então os restantes que a ajudam a chegar para a sombra quando é preciso, ou lhe vão buscar alguma coisa que necessite. A solidariedade entre o grupo é espantosa. Ou pelo menos assim parece a quem passa.
São pessoas sem outros bens que não sejam aqueles que têm consigo. Alguns, não materiais, que normalmente em outras circunstâncias se esqueceriam, tal como nós nos esquecemos que os temos. São pessoas sem rendimentos que não sejam as esmolas que lhes vão deixando. No entanto, tentam, por todos os meios, manter-se limpos e arrumados.
Quando passam, na televisão, casos de pessoas pobres que vivem em casas sem condições, muitas vezes o que me salta à vista não são as faltas de condições da casa mas sim a falta de limpeza. Falta de limpeza, como me mostram todos os dias os indigentes que vivem no Terreiro de Paço, não significa pobreza. E o inverso também é verdade.
Cada dia que passo pelo Terreiro de Paço renovo a lição que aprendi no primeiro dia que os vi – podemos perder tudo, menos a dignidade. Essa não há quem nos tire.
E é, também, com a realidade destes indigentes que ganho forças para lutar, agir e contemporizar. Onde na memória se grava que a dignidade não tem estatuto social.

domingo, 2 de agosto de 2009

Autopsicografia

Foto de Charalampos Mavrommatis

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Enquanto houver amizade

Foto de Jerry Matchett

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um do outro há de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade
A amizade nos reaproximará
Pode ser que um dia não mais existamos....
Mas, se ainda houver amizade
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente.
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos vivemos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

domingo, 26 de julho de 2009

Precisava tanto de ti hoje

Foto de Emil Schildt

Queria tanto ser espuma do mar
que te beija o olhar constantemente.
Ser a humidade que fica
entre os teus lábios quando se tocam.
Ser a semente da inquietude desse teu peito
encharcado de ternura.

Sempre desfolho a minha vida
em diário de cores intensas.
Mas sempre ancoro na palavra saudade
que suavemente me molha os pés,
deixando crescer a raiz dentro deste corpo
que te anseia.

Plano, em silêncio,
nesta distância que nos separa e que dói, tanto…
Viajo ao teu abraço, noites e noites,
na companhia das estrelas que calam o murmúrio
deste amor que não cessa.

São tantas as vezes que te beijo a alma,
em marés agitadas de madrugadas vazias de ti.
São tantos os sonhos que se empoleiram à janela
e te tocam em pontes de desejos
comandados pela voz penetrante e quente
que me deixa embriagada pela ilusão do aconchego.

Estendo o meu corpo ao luar
esperando que este me lamba e te entregue o meu sabor,
talvez te lembres do aroma do carinho em tons de branco,
pincelado de rosas vermelhas.

Mesmo na flacidez, insistente, do passar dos anos
ainda crescem, rijos, os seios que te pertencem…
ainda nasce o sol, quente, entre as minhas coxas
com a memórias dessas mãos de poeta
que anseia o poema em corpo embriagado de palavras insanas.

Vai-se fechando a noite e ficando para trás um grito mudo e ausente,
num pensamento que me acerca e que te implora:

- Precisava tanto de ti hoje, tanto…

Vanda Paz

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sentir o saber

Foto de Damian Puttick



Não consigo bem pôr em palavras o que sinto quando toco num livro. Livro de capa áspera, recheado de folhas tingidas por um tom amarelado que cheira a saber. Gosto de sentir com a ponta dos dedos os relevos das letras que anunciam o título da obra, de encostar as páginas ao nariz e absorver o aroma do papel. Ando sempre com um livro na mala, vá para onde for, e quando me esqueço de o trazer é como se me faltasse um bem essencial e indispensável à vida, como se de um membro extra se tratasse, tão necessário quanto um braço ou uma mão.
Ultimamente não tenho lido livros. Devoro livros. Como quem se apodera de um morango gigante coberto de natas frescas, impossível de resistir. São a companhia perfeita, sei que aquelas histórias fictícias que me recheiam a vida estão sempre ali para mim, não me abandonam. Nunca. Adicionam detalhes doces e aconchegantes à minha existência, levam-me para um paralelo imaginário, o qual muitas vezes prefiro à realidade.
Trato-os por tu, e no final, falo com eles, e sussurro-lhes os momentos mágicos que me ofereceram, como se fosse um segredo só nosso.
Companheiros de cabeceira, e de uma vida, dou por mim a preferir a companhia deles em vez de certas companhias humanas, que já esgotaram o que de cativante tinham, que para mim já não passam de simples folhas brancas, amarrotadas, com meros rabiscos escrevinhados, desprovidos de sentido. Desprovidos de vida.

Bee

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sonho azul

Foto de Dianne Owen


Levei-o no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-o comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

Levei-o no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-o comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

Pedro Ayres Magalhães

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fim

Foto de Arny Rardts

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário Sá Carneiro

domingo, 12 de julho de 2009

Ser criança

Foto de Marta Cernicka

Hoje soltei as amarras do pensamento e ergui bem alto a bandeira da Paz!
Não quero saber de guerras nem de lágrimas, de crianças órfãs, de membros mutilados, de mortos estendidos pelas estradas... Que se mate quem as faz, quem as provoca, quem cria armas mortais!
Não me importa se a América está em crise e leva o resto do Mundo com ela, num abismo absoluto da qual não vemos saída. Mate-se quem gere desta forma vergonhosa o nosso dinheiro, quem nos enfia nesta perigosa curva sem fim à vista e deixem-nos trabalhar, produzir e comer o nosso pão.
Deixem-nos Viver!
Hoje sou criança e quero a inocência que lhes pertence, quero desconhecer a podridão que me rodeia, quero esquecer que existem Homens cruéis, capazes de tirar uma vida, capazes de excomungar vítimas, capazes de torturas e mutilações.
Hoje sou criança e quero um Mundo onde as pombas brancas esvoacem graciosamente, onde as borboletas nos pousem no nariz e onde saibamos sorrir com vontade. Onde podemos caminhar descalços sem medo de pisar lixo ou armadilhas de qualquer espécie, onde o mar é azul e límpidos e as águas dos rios cantam músicas de embalar às flores plantadas nas margens.
Hoje soltei as amarras do pensamento e brinquei feliz num mundo muito melhor!
Vera Sousa Silva

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hoje

Foto de Antanas Strazdas

Hoje vou apagar do meu calendário dois dias:
Ontem e amanhã.
Ontem foi para aprender,
E amanhã será uma consequência do que possa fazer hoje.
Hoje enfrentarei a vida
Com a convicção de que este dia nunca retornará.
Hoje é a última oportunidade que tenho
De viver intensamente
Já que ninguém me assegura
Que amanhã veja o amanhecer.
Hoje serei corajoso
Para não deixar passar as oportunidades que se me apresentem...
Que são a minha oportunidade de triunfar.
Hoje aplicarei
A minha riqueza mais apreciada:
o meu tempo
No trabalho mais transcendente:
A minha vida;
Passarei cada minuto
Apaixonadamente para transformar este dia
Num único e diferente dia da minha vida.
Hoje vou vencer
Cada obstáculo que apareça no meu Caminho,
Acreditando que vou vencer.
Hoje vou resistir
Ao pessimismo e conquistarei
O mundo com um sorriso, com uma atitude positiva
Esperando sempre o melhor.
Hoje farei de cada humilde tarefa,
Um sublime expressão.
Hoje terei os meus pés sobre a Terra
Compreendendo a realidade
E as estrelas tilintarão
Para inventar o meu futuro
Hoje usarei o tempo para ser feliz
E deixarei as minha pegadas e a minha presença nos corações dos outros.
Hoje, convido-te a começar uma nova estação,
Onde possamos sonhar
Que tudo o que nos propomos possa ser possível
E o obteremos,
Com alegria e dignidade

Anónimo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Acho tão natural que não se pense

Foto de Dorothy Neumann



Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa...


Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .


Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.


Alberto Caeiro

domingo, 14 de junho de 2009

Há palavras que nos beijam

Foto de John Orr

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança.
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte.
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A profecia maldita


Chamo-me raiva
E estou grávida
De um grito agudo
Que carrego
Dentro de mim

Foi gerado à força
Numa cópula maldita
Num beco escuro
Entre o fio de uma navalha
E uma parede fria

Hei-de pari-lo
Numa noite destas
Quando voltarem os lobos
E uivarem em coro
A uma lua incandescente

Nesse preciso momento
Algo rasgará o silêncio
E ouvir-se-á
Um eco estridente
De um grito medonho
Que galgará
Os muros do crepúsculo
Até ao cabo do infinito...

Devastará cidades
E províncias
Ensurdecerá os vivos
Paralisando-lhes o resto dos sentidos
E ressuscitará os mortos
Que se erguerão dos seus túmulos

Nesse dia
Cumprir-se-á a profecia
De todos os demónios
Que na terra habitam
Há milénios
Disfarçados de homens comuns...

E alguém anunciará a boa-nova
Que ditará os destinos
De um mundo decrépito
Corrompido e moribundo
Mesmo à beirinha do colapso

Nesse dia
Ouvir-se-á
De uma voz cavernosa
Uma só frase

Uma frase curta
E seca...
Nasceu a besta!


A autora, Lurdes Dias (Cleo) e a Temas Originais, têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “In Pulsos”, a ter lugar no Auditório sito ao Campo Grande, 56, Lisboa, no próximo dia 6 de Junho, pelas 19:00. Obra e autora serão apresentadas pela escritora Mel de Carvalho.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O rosto da Maria


Maria é o meu nome
E sou o fruto prometido
Que brotou da imaginação
De um poeta e prosador
Que habita
Ali para os lados de um site
Onde estende com orgulho
Toda a sua escrita
Urdida
E muito bem ugada
A preceito

Um dia
Levado que foi
Pela aventura
De outras coisas
Que tais
Que não fossem as demais
As banais...
Deu-me vida e corpo

E que corpo!

Que outros logo desejaram
E alguns até salivaram
Com os olhos gulosos
E esbugalhados
Que lhes adivinhei
Sem demora

Daquilo que lhes contava
Nas páginas abertas
Do meu diário
Numa espécie de confessionário
Sem preconceitos
Nem padre

Sei que já me espreitaram
Pelos buracos da rede
Onde só me viram as meias...

Maria é o meu nome
Sou jovem e enfermeira
Especializei-me na cura
De toda e qualquer maleita...

Procuraram-me nas letras
Acariciaram-me em segredo
No calor e no aconchego
Do seu devaneio...

Inventaram-me até um rosto
Um rosto que nunca antes viram
Mas que pode muito bem ser
... este!

Cleo


O autor, José Ilídio Torres e a Temas Originais, têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Diário de Maria Cura”, a ter lugar no Auditório sito ao Campo Grande, 56, Lisboa, no próximo dia 6 de Junho, pelas 16:00. Esta sessão contará com impressões sobre a obra de Lurdes Dias (Cleo), Magda Pais e Vera Sousa Silva: três mulheres à volta de um livro.

domingo, 17 de maio de 2009

Rascunho de um amor-perfeito



Fiz um poema que falava de metade dos dedos e andava numa perna só.
Do único olho que tinha podia avistar-se o mundo.
Lá ao fundo, lá ao fundo…
Fiz um poema sem sexo definido, quase travestido, por não saber o que querer.
Por não saber, por não saber…
Fiz um poema até quase me doer.
Parecia, por mais voltas que o mundo desse, que nem mesmo que quisesse,
O poema era sempre a metade de um todo, e a outra metade tinha fugido com um tolo.
Se eu pudesse, se eu pudesse…
Agarrar este rascunho e cerrar um punho, e quase morrer.
Escrever, escrever…

Um dia voltei a pegar-lhe.
Nas mãos delicadas que lhe nasceram prolongavam-se dedos finos como pincéis.
Começou a pintar-me.
Primeiro um olho no exacto local onde me faltava,
Depois uma perna paralela à outra para me fazer andar.
E eu andava, andava...
Distraído e ocupado a pensar.

E se hoje vivo com esse poema na cama, e tem formas belas de mulher,
Metade de mim é perfeita para a amar, a outra metade nem quero imaginar.

José Torres

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Abraço feito poema


Foto de Dominique Dierick
Existem aqueles instantes únicos
Em que me sinto invadida
Por um desejo
Incontrolável e desenfreado
De soltar a emoção
De gritar ao Mundo o Sentimento
E dar voz ao coração
Deste Tanto que me preenche
Deste Tudo que me alenta
Que me sacia e alimenta.
E a Ti Amor
É urgente dizer-Te
Uma vez
E outra mais
E outra ainda
Que Te amo pra-lá-de-muito!
És a minha Vida
O meu Abrigo
O meu Afago
O meu Carinho
O meu Querer
A minha Razão de viver
Estou perdida nesta paixão por Ti
Como no primeiro dia
Mas mais forte
Mais intensa
Deixo-Te o meu Abraço feito Poema
Onde me entrego nesta vaga de palavras
Que Te chegam na sublimação plena deste Sentir
Quero-Te muito!!!

A autora, Sandra Nóbrega (Fly) e a Temas Originais, têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro: "Pedaços D'Alma ", a ter lugar na Galeria Municipal do Montijo, sita na Rua Almirante Cândido dos Reis, 12, Montijo, no próximo dia 9 de Maio, pelas 16:00. Obra e autora serão apresentadas pelo Mestre Rogério Borges Pereira Mota.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Manipulação de leituras


Um dos fenómenos que se podem observar na maioria dos sites de literatura e, muitas vezes, nos próprios blogues é a manipulação, pelos autores, do número de leituras obtidas pelos seus trabalhos.
São postas ao dispor dos bloguistas, algumas ferramentas que permitem controlar quer as visitas diárias quer o número total de visitas nos seus blogues. E existem sites que premeiam os blogues que lá estejam registados e que obtenham o maior número de leituras em determinado dia. Lembro-me, por exemplo, da Blogstar que atribui, mensalmente, uma estrela dourada ao blogue que seja indicado mais vezes para a merecer.
Qualquer uma das ferramentas está preparada para considerar cada visita feita por determinado IP como sendo apenas uma visita, por determinado período (normalmente um dia). Ou seja, se determinada pessoa visitar um blogue, do mesmo computador, dez vezes no mesmo dia, conta apenas como uma visita (ou, no caso da blogstar, como apenas uma indicação). Os mecanismos de controlo funcionam, é um facto. Mas também é verdade que, para um conhecedor, estes mecanismos são bastante fáceis de contornar. E nem precisa de ser um profissional.
De acordo com a Wikipédia, IP é um acrónimo para a expressão inglesa “internet Protocol” (protocolo de internet) que é um protocolo usado entre duas ou mais máquinas, em rede, para encaminhamento dos dados. De uma forma clara, o nosso IP é o que identifica a nossa ligação à internet. Mantendo-se a ligação, mantêm-se o IP. Reside aqui um dos truques mais usados para manipular as estatísticas dos blogues (ou qualquer sistema que controle os IP’s, como sejam as votações on-line, etc).
Se desligarmos a ligação à internet, quando a voltamos a ligar, o sistema vai obter novo IP. Logo, se voltarmos a aceder ao site, é contabilizada nova leitura porque o IP ainda não está registado. Consegue-se assim, com muita facilidade, contornar as estatísticas, criando falsas visitas. Há ainda quem recorra a pequenos programas informáticos que permitem mascarar o IP, com o mesmo intuito, assim como sites de internet que funcionam como mascaras.
Nos blogues, este incremento de leituras (ou, em outra análise, esta falsificação de estatísticas) pode ter, como único intuito, enganar os visitantes, fazendo-os acreditar que o blogue em causa é muito visitado e que merece, por isso, ser acompanhado. Para além do incremento (falso) de leituras, pode-se também pretender receber prémios virtuais (como seja a estrela dourada da Blogstar).
Em sites de literatura, como é o caso do luso-poemas.net, o incremento das leituras ganha uma dimensão diferente. Como é um site frequentado por bastantes utilizadores, o número de leituras de cada texto será, á partida, sinónimo de qualidade. Naturalmente haverá tendência a se ler primeiro os textos mais visitados.
Também no luso-poemas, a falsificação das estatísticas está relacionada com o IP. IP’s diferentes, leituras diferentes… ou não. Porque, do acima exposto, já concluímos que se pode falsificar/mascarar o IP.
No entanto não é a única estratégia usada por alguns autores neste site.
Na página de abertura deste site constam as últimas entradas, por ordem cronológica, uma por cada autor. Colocado o texto com determinado titulo, espera-se que tenha leituras e/ou comentários. Se, passado um bom bocado, ainda estiver abaixo do nível esperado, podem-se tomar várias atitudes para manipular. Por exemplo, mudar o título. Quem sabe, um título mais apelativo chame a atenção. Ou, se o problema for falta de comentários e, se por acaso, se deixou alguma nota mais agressiva ou menos própria, pode ser que, retirando, então seja comentado.
Se ainda assim não resultar, passa-se o texto a rascunho, grava-se e, passado um bocado, voltamos a editá-lo e publicá-lo. Ao fazê-lo, o texto é (re)publicado com a hora em que o estamos a fazer (e não com a hora em que foi publicado a primeira vez). Como as leituras obtidas antes de o passar a rascunho estão contabilizadas (e o sistema não as coloca a zero), vamos ter um texto com algumas leituras (porque já as teve antes) no meio de textos acabados de publicar (e portanto com bastante menos leituras).
Suponhamos que, mesmo assim não resulta. Que se continua com pouquíssimas leituras. Então que tal enviar o link do texto a alguns amigos, seja pelo Messenger ou por mail, pedindo-lhes opinião. Ou mandar mensagens privadas a outros utilizadores a pedir-lhes que visitem o texto em causa e que dêem a sua opinião (aproveita-se e pede-se comentários, nada mais simples).
Há ainda quem recorra a outro expediente. A criação de outro utilizador, de modo a auto-comentar-se, aumentando o número de comentários recebidos.
A mente humana está cheia de expedientes. Por cada mecanismo de controlo utilizado, são descobertas formas de os contornar. A necessidade de se auto promover e de ser acarinhado pelos outros aguça o engenho, e leva a que se tomem atitudes que, quando detectadas pelos restantes utilizadores, fique denegrida a imagem inicial que se tinha de quem usou expedientes.
São, por isso, atitudes que se devem evitar. Quer porque não favorecem quem as usa, quer porque os resultados são falsos e porque não obtemos um feedback real do nosso valor.
E para terminar, resta apenas referir, para que não restem dúvidas, o que quase todos que andam nestas “andanças” esquecem – que, mais tarde ou mais cedo, tudo se sabe.

domingo, 3 de maio de 2009

O que há em mim é sobretudo cansaço

Foto de Kari McGrath


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...



Álvaro de Campos

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nos teus lábios...

Foto de Martin Cowell

Nos teus lábios percorro
Labirintos de prazer surdo...

São mar-imensidão
São tormentas por acontecer...

Nos teus lábios sou rei-momo
Sou semente abrupta por colher
Sou frágua liberta nas arribas
Sou onda a bater...

Nos teus lábios sorvo
Alfazema que emana de ti

Os teus lábios...
São nuvens de algodão doce
São morangos com chantili...

Nos teus lábios sou rei-momo
Sou semente abrupta por colher
Sou frágua liberta nas arribas
Sou tudo o que acontecer!...

(Octávio da Cunha)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um sítio perfeito para dizer que te amo



Há sítios perfeitos para dizer que te amo,
No alto de Santa Luzia com Viana aos pés
O lima a espreguiçar-se oceano dentro
Colorir-te de esperança nesse verde que és.

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No Alentejo em seara de loiro trigo
Encontrar esse infinito nos teus olhos
Saborear esses cheiros e sabores contigo

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Terra bruta pelo esforço amainada
Devorar as vinhas do teu corpo deleitado
Nas veredas do Douro, de lágrimas sublimada.

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Do alto da Serra de Cerveira, avisto o mar
O infinito que o teu amor abarca
Teus lábios no meu ouvido a sussurrar

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
A serra do Soajo, afluente granítico do Geres
Se Deus existisse dir-lhe-ia que tu e essa montanha
São as coisas mais belas que ele fez.

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No labirinto das ravinas erectas sobre o mar
Da alentejana costa onde sempre que o sol se põe
Há mil motivos para te amar

Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Entre lençóis suados, e almofadas sufocantes
Gritos de esperanto de amores clandestinos
De traços que compõem as historias de amantes

Eternos que somos…

(José Alberto Valente)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pedaços de Vida e Fantasia



Uma vida não se justifica pela justificação dos actos, tão pouco dos factos. Um processo de aprendizagem permanente, onde as palavras se defendem do orgulho. Nos extremos, a dor coabita com elas e com a vida. Às vezes nada as distingue do silêncio, são apenas uma forma de o suavizar. Nelas respiro e me abrigo; as minhas mãos movem-se obedecendo ao meu pensamento, pela força das palavras. Convém lembrar que um coração tem duas faces, é a morada perfeita para a inspiração de um caçador de palavras.

António Paiva


A partir do dia 24 de Abril, António Paiva irá a várias localidades fazer a apresentação do seu novo livro, Pedaços de Vida e Fantasia. Convido-vos a visitar o site www.antoniopaiva.net para saberem qual o dia em que a apresentação será mais perto de vós para que possam lá ir. Tenho a certeza que irá valer a pena.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ostensão

Foto de Miguel Pais

Perco-me entre livros
os que escrevi
e os que vou escrever…

Sinto-me emaranhado
entre escritas difusas.

Perdoem-me… não sei quem sou!



O autor, Paulo Afonso Ramos, e a Temas Originas, têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Caminho da Vontade” a ter lugar na Biblioteca Municipal Dr. José Vieira de Carvalho, na Maia, no próximo dia 18 de Abril, pelas 15:00. Obra e autor serão apresentados pelo poeta Xavier Zarco.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A pedra no caminho

Foto de Bernt Carlzon
Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.
— Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.
Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.
Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.
— Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?
E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.
Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.
O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.
Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.
Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho. Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”
E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra. Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.” Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro. A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.
— Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.
Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

William J. Bennett